O voo da Gaivota 1 | Page 88

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mas eu não. Resumindo, encontro-me no elevador do metro sozinha com um rapaz.
As portas fecham-se pesadamente, lentamente. Um ascensor do metro por vezes é sinistro. Metálico e inquietante. O rapaz
chega-se ao pé de mim e fala comigo. Eu ponho o indicador na boca e o dedo na orelha, o que quer dizer: " Não falo, não ouço ", e fico calada. Não quero falar, faço mímica. É o meu método habitual para pôr um muro entre mim e os outros, para ficar tranquila. Percebi logo que aquele tipo tinha um ar duvidoso.
Ele continua a falar comigo e eu faço sinal com a cabeça que não compreendo. Então, baixa as calças e masturba-se à minha frente.
É insuportável permanecer ali, encurralada, diante daquele espectáculo lamentável. De cada vez que desvio os olhos ele muda de posição para me obrigar a olhar. Sinto-me doente. Se fechar os olhos ele é capaz de me agredir. Seja como for, tenho medo de fechar os olhos, os meus olhos são os meus ouvidos, o meu único recurso, sem eles não posso afrontar o perigo.
O pânico invade-me, não sei o que fazer, se hei-de gritar ou não. Se eu gritar ele pode tornar-se perigoso. Então concentro-me e aperto os maxilares, não fecho os olhos, como se estivesse calma, surda e incapaz de gritar. Que é o que ele deve estar a pensar. Dá-lhe uma sensação de segurança saber que pode agredir alguém que está indefeso, que não se vai pôr aos gritos contra o sátiro. Mas na minha cabeça tudo anda à roda, estou à beira de uma crise nervosa, pronta a explodir, elétrica. Agarro-me à única ideia que permanece lúcida: não grites, cala-te, ele vai bloquear o elevador e violar-te. Cala-te.
Acabou o que queria fazer no momento em que o elevador chega ao topo. Foi nojento, uma porcaria. De ficar agoniada.
E ele ainda disse: " Muito obrigado,", e saiu tranquilamente do elevador.
Eu estava chocada e também estupefata. Aquela situação ultrapassou o meu entendimento. O que queria aquele tipo, na realidade? Terá sido por perceber que eu era surda?
Aos dezesseis anos aquele género de agressão sexual era um mistério para mim.
Ao voltar para casa contei tudo à minha mãe. " Tiveste sorte, o homem podia ser perigoso."