O voo da Gaivota 1 | Page 85

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Tenta explicar-me por mímica, mostrando-me papéis. Já percebeu que somos surdas. Bem viu que falávamos por gestos.
Mas nós não estamos na disposição de comunicar, nem pensar nisso é bom e é o que nos dá esperança de conseguir atrapalhar as coisas. Folheiam os nossos cadernos para descobrir os nomes. Não têm sorte nenhuma, não escrevo o meu nome nos cadernos. Já sou crescida, ando no liceu, não estou na primária.
Mas a minha amiga fá-lo e ficam a saber o nome dela, mas mais nada.
Em seguida vamos à apalpadeira. Uma agente da polícia, bastante agressiva, trata-nos com brusquidão, como se fôssemos bonecas de trapos. Apercebo-me de que a situação se agrava.
Ainda por cima não suporto a maneira como ela nos apalpa.
Ponho-me aos gritos, fazendo de conta que não sei falar. Podia perfeitamente alinhar uma frase correcta, mas não, ponho-me aos berros na cara dela. Fez-me zangar, com aquelas mãos nojentas a revistar-nos sem o menor cuidado. Fico surpreendida: a mulher polícia tenta acalmar-me.
Em seguida vem um homem tomar conta dos nossos depoimentos. Senta-se e começa a dizer:
" É muito feio o que andas a fazer. Se continuares a roubar vais acabar na prisão."
Eu digo que sim, aceno que sim com a cabeça como uma criança. " Vá lá, sumam daqui!"
Nem quero acreditar. Digo para comigo: " Atenção, é uma armadilha, fazem isto de propósito." Mas o homem repete com um gesto:
" Caiam fora!"
Pegamos nas malas e saímos sem correr, com as costas muito direitas, ainda inquietas, mas era verdade, deixaram-nos ir embora!
Na rua saltamos de alegria. Rimos, dum riso nervoso, um riso incontrolável de alívio, chorando ao mesmo tempo. E recapitulamos a astúcia, a mímica, eu aos gritos, é a liberdade.
Volto para casa. Já compreendi. Acabou-se.