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disso dinheiro de bolso. E esse orgulho vai levar-me a fazer O disparate. Desta vez não há desculpa, sou culpada à partida. Somos culpados.
Eu e uma amiga minha combinamos ir cada uma roubar uns jeans a uns grandes armazéns. Uns Levi ' s. Que são caros. E lá estamos nós na secção à procura da marca, do tamanho.
Na cabina das provas conseguimos retirar o selo magnético do fundo das calças. E saímos a espreitar para todos os lados, com os jeans bem escondidos. A empregada encarregada de vigiar as cabinas de prova não se encontra por ali. Descemos os andares correndo, olhando receosamente para trás, quando avisto a empregada a olhar de longe para nós. Está a falar com uma mulher vestida à civil.
Aviso por gestos a minha amiga. " Está a vigiar-nos, tenho a certeza de que está a olhar para nós."
" Que ideia, não te aflijas. Já estás fazendo drama. Não há problema."
" Olha que ela está com cara de caso! Digo-te que fomos apanhadas..."
Deixa-te disso! És louca!"
A escada rolante. A travessia do hall. Estamos quase a sair, quase a franquear a porta, vamos loucas de alegria.
De repente, sinto-me agarrada por trás, a mulher põe-me as mãos atrás das costas e leva-me de novo para os armazéns.
No mesmo instante a minha amiga diz por gestos, rapidamente: " Sobretudo, não fales! Não soltes nem um som!"
Faço o que ela diz. Das nossas bocas não sai nem uma palavra. É a nossa defesa instintiva, a única. O refúgio dos surdos.
Mas a minha cabeça continua a funcionar. Vão telefonar aos meus pais, que horror. Sou uma ladra.
E eis-nos na esquadra. A mulher despeja as nossas malas.
E nós olhamos, sempre caladas. Pede-me o bilhete de identidade e eu finjo que não percebo.