O voo da Gaivota 1 | Page 83

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aprendizagem da vida. Eu queimava tudo o quepodia, até ao momento em que alguém ou alguma coisa me impedia de ir mais longe.
Um dia, depois de uma das festas do SOS-Racismo, nasquais sempre participei com amigos surdos e ouvintes, depoisde ter dançado, palrado para a esquerda e para a direita ao acaso, regressámos de metro por volta da uma da manhã. As carruagens iam apinhadas, comprimindo-nos uns contra os outros.
Um negro espadaúdo, que não conseguiu entrar, fez-me sinal, na galhofa, a perguntar se quero ir com ele entre duas carruagens, agarrando-me, como ele, ao fecho exterior da porta. Acho a ideia divertida e em vez de ir amontoada com os outros, resolvo imitá-lo.
Tenho medo, de facto, mas é um medo excitante. As estações desfilam umas atrás das outras e estou persuadida de que não terei coragem de prosseguir até à próxima. Mas aguento.
Cheia de brio, não quis desistir e conto chegar corajosamente, até à última estação. Foi um acto de total inconsciência.
Nunca me gabei desta façanha. Hoje em dia sinto um pavorretrospectivo. Em Auber, talvez as carruagens do metro se lembrem ainda.
Durante todo o dia estamos numa escola oralista. à saídasentimos uma exigente necessidade de recuperar. A necessidadede estarmos juntos, de falar entre nós. De recuperar não só otempo perdido durante o dia com os que ouvem, mas a nossalíngua, a nossa identidade. Isso não aconteceria se a línguagestual fosse autorizada na escola. Não estaríamos a viver numgueto. Se não houvesse nem frustração nem censura, tudo seriamais simples. Mas acontece que nada é simples para nós. Quando se passou o dia a entender pela metade o que disse o professor, só há vontade de fazer uma coisa: encontrarmo-nos e falar, falar, fazer coisas em conjunto. É importante estarmos juntos.
E é juntos que fazemos maluqueiras.
Tenho na altura quinze, talvez dezasseis anos, e uma enorme vontade de ter uns jeans. Todas as raparigas da minha idade sonham com trapos e a farpela ideal é os jeans. Não osbaratos, aos montes nas lojas de saldos, esses não. Os bonitos, os de marca, os super-look. Os que custam pelo menos quatrocentos francos.
Mas os meus pais não são ricos. Já lhes dou uma enorme despesa com o Minitel, as aulas e o resto. Não me permito pedir-lhes para além