O voo da Gaivota 1 | Page 82

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em vernáculo. Mas seja como for, travar conhecimento entre surdos é obra de segundos.
Nós reconhecemo-nos à partida: " És surdo? Eu sou surdo."
E pronto. A solidariedade é imediata, como dois turistas no estrangeiro. E a conversa converge imediatamente para o essencial. " O que é que fazes? De quem é que tu gostas? O que é que pensas fazer acerca do não sei quantos? Onde é que vais esta noite?..."
Também com a minha mãe a conversa é franca e direta.
Não é como certas pessoas que ouvem e se escondem muitas vezes atrás das palavras, que não exprimem o que pensam em profundidade.
Educação, conveniência, palavra que não se diz, palavra que só se sugere, palavra proibida ou palavra aparência. Palavras não proferidas. Palavras que funcionam como escudos.
Para nós não há gestos interditos, escondidos, sugeridos ou grosseiros. Um gesto é direto e significa simplesmente o que representa. Por vezes duma forma brutal, do ponto de vista dequem ouve.
Quando eu era pequena, era impensável que me proibissemde apontar para qualquer coisa ou para alguém, por exemplo!
Ninguém me dizia: " Não faças isso, que é má-criação."
O meu dedo a apontar na direcção de uma pessoa, a minhamão a agarrar um objecto, era já a minha forma de comunicar.
Nada me era interdito na língua gestual. Exprimir que se temfome, sede ou dores de barriga, é visível. Que se ama, é visível, que não se ama, é visível. Essa " visualização " talvez seja embaraçosa, a ausência de interdito convencional.
Aos treze anos decidi não aceitar mais proibições, viessemelas de onde viessem. Os meus pais aguentaram o choque comopuderam. Na estação de metro de Auber, eu estava em casa, naminha comunidade livre.
Mas quando uma pessoa trepa para as traseiras de uma carruagem do metro e voa como o vento de estação em estação, abrincar à Jane do Tarzan... pode morrer. E eu fi-lo. Mas nunca o disse, perdoem, meus pais. Felizmente não morri. Aquilo fezparte da minha