O voo da Gaivota 1 | Page 81

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E também o ano do compromisso " político,". Participo em manifestações a favor do reconhecimento da língua gestual.
A meu ver, é positivo, construtivo. Quero que parem de proibir a minha língua, que as crianças surdas tenham o direito à educação completa, que seja fundada para elas uma escola bilingue.
É absolutamente necessário fazer a promoção da língua gestual em França, que o seu ensino não seja reservado a uma minoria, a uma elite e sobretudo que deixem de a proibir. Neste capítulo, a minha mãe deixa-me agir:
" Se é importante para ti, vai em frente, avança!"
Os meus pais dão-me autorização para fazer muitas coisas, mas eu abuso e ainda faço mais. Por exemplo, não sabem – e só virão a sabê-lo através de rumores que lhes chegaram aos ouvidos- que me encontro com " a minha malta," no metro da ópera. De momento, é ali que funciona a nossa base, o gueto onde se fala de tudo, se organiza tudo entre surdos. Os jovens que ouvem fazem-no noutros locais, nos arredores, em terrenos baldios, nos pátios dos prédios.
A grande diferença é que quando um surdo encontra outro surdo pela primeira vez, contam um ao outro... histórias dos surdos, quer dizer, a história da sua vida. De imediato, como se se conhecessem desde sempre. O diálogo é automático, direto e fácil. Não tem nada a ver com o das pessoas que ouvem. Alguém que ouve não salta ao pescoço de uma pessoa que lhe é apresentada pela primeira vez. Leva o seu tempo a conhecerem-se, vai devagar, com precaução. São precisas muitas palavras,
têm a sua maneira própria de raciocinar, de construir as ideias, diferente da minha, da nossa.
As pessoas que ouvem começam a frase pelo sujeito, depois vem o verbo, o complemento, e por fim " a ideia ". " Eu decidi ir ao restaurante comer ostras."( Adoro ostras.)
Na língua gestual exprime-se em primeiro lugar a ideia principal, seguidamente acrescentam-se os detalhes e compõe-se a frase. Se comer é o objectivo principal, é esse o gesto pelo qual se começa a frase. Quanto aos pormenores, posso ficar horas a fazer gestos. Ao que parece, sou tão gulosa de detalhes como de ostras.
Além disso, cada um tem a sua maneira própria de fazer gestos, o seu estilo próprio. Como vozes diferentes. Há aqueles que pormenorizam e os que abreviam. Os que fazem gestos em calão ou