O voo da Gaivota 1 | Seite 80

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Gesticulo: Não vale a pena berrar porque sou surda!"
A fúria dela redobra perante o meu atrevimento. Surda sim, mas sobretudo mentirosa. A discussão fica cada vez mais acesa e Maria, aterrorizada, refugia-se no quarto a chorar. Um pouco mais tarde, sou eu que vou chorar para o meu quarto. Ela vai lá ter comigo e choramos as duas.
Naquela altura, tudo era grave para mim, sobretudo o fato de os meus pais não aceitarem o meu romance de amor com aquele rapaz. Eles receiam aquela relação forte, violenta, com um rapaz mais velho do que eu, marginal, que já não quer estudar, que trafica não se sabe bem em quê, que briga amiúde, sempre pronto a andar ao murro, que é possessivo, exigente e em que eu deposito uma confiança cega. O meu " vadio ",. Eles sabem que devo ter cautela; eu não. Sinto-me tão atraída por ele como por mim e já nada é claro na nossa história, a não ser essa atracção. Nem por um segundo penso no que está errado nele. Porque aquela violência, porquê aquela marginalidade, aquele temperamento excessivo? Julgo conhecê-lo melhor do que as outras pessoas, uma vez que o amo. Não teve a sorte de ter uns pais como os meus. Procura o amor, tal como eu; deseja-me e eu desejo-o a ele. E absorvida por aquela história pessoal e um pouco louca, não escuto mais nada. Tem uma " forte pancada?", E depois? Eu gosto dele. Ponto final. Acabou.
De resto, não foi propriamente por causa dele que abandonei as aulas. Foi a oralização que me pôs em fuga. A sensação de estar a perder um tempo precioso. Quero viver.
à noite o meu pai retoma o tema discussão-zanga. Desta vez escuto-o com o coração apertado, sem replicar.
Nunca mais falto às aulas. Prometo, e cumpro a minha promessa, mas a Emmanuelle Laborit não presta a menor atenção às aulas. Está ausente, embora presente. Os professores enervam-se, não conseguem perfurar aquela bola no centro da qual me instalei, longe das suas caretas. Falem, falem à vontade. Peçam-me para abrir a boca, que só o farei para troçar de vocês, para falar para a esquerda e para a direita, mas não para aprender aquilo que querem fazer entrar à força nesta boca.
Foi o ano de todos os perigos. De todas as loucuras. De todas as aprendizagens.