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preso é-se forçado a ficar calado e a aceitar. Nunca nada me fez sofrer tanto como este episódio.
15 Perigo Roubado
Chegou o Minitel! Objecto mágico. A comunicação sem intermediários. Choro de emoção. Mais uma forma de liberdade, um tesouro de liberdade aos quinze anos!
Este aparelho permite-me comunicar livremente com os meus amigos, por escrito. É um presente sumptuoso, uma libertação!
Foram os meus pais que me fizeram esta surpresa. Vejo aquela espécie de máquina de escrever em miniatura acoplada
ao telefone, com um écrã de televisão. A minha mãe já preparou tudo, basta-me ficar em linha. A minha amiga Clara telefona, um flash começa a funcionar e vejo aparecer na tela as frases da minha correspondente. O meu pai, a minha mãe, a Maria olham para mim. Fico com a garganta embargada pela emoção. Pela primeira vez na minha vida, descubro o que é ser independente!
Já não preciso de andar atrás da minha irmã para telefonar à Clara. Conversamos durante horas, ela ainda é mais faladora do que eu. Ficamos uma hora ou duas a tagarelar naquele telefone, ela a contar-me a sua vida e eu contando a minha. É formidável para nós, mas sai caro. E é de temer, quando se tem segredos aos quinze anos.
Foi por causa de uma colega que me deixei apanhar. Sem a menor intenção de me espiar, a minha mãe leu no écrã, na minha ausência, um recado que denotava uma certa inquietação:
" Olá, Emmanuelle! Então, continuas doente?"
à noite, quando regresso a casa, a minha mãe pergunta-me cara a cara:
Estás doente?"
Tento mentir, mas ela interrompe-me de imediato. A verdade é que eu deixei de ir às aulas. E a minha mãe não está disposta a deixar passar esta história.
Em língua gestual, a discussão é violenta; a minha mãe grita ao mesmo tempo, o que, como é evidente, não serve de nada.