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acrescida desta vez da humilhação, e a consciência plena que eu tinha, naquela idade, do que isso significava.
Quando recordo este episódio, aquela terrível sensação de injustiça, o desprezo deles em relação àquilo que eu era, ainda sinto arrepios. Naquele dia, eu precisava mais do que nunca do meu pai ou da minha mãe, tinha esse direito. Precisava que me ouvisem, tinha esse direito.
Em vez disso, forçaram-me a regressar à solidão, ao tempo em que puxava a minha mãe pela manga para que me escutasse.
Ao tempo em que o menor franzir de sobrancelhas do meu pai ou uma expressão mais irritada me deixavam inquieta. Ao tempo em que o mundo dos ouvintes era um imenso mistério, um sem-número de múltiplas incompreensões, um planeta desconhecido, perigoso.
Se me tivessem dado a possibilidade de falar ao meu ritmo, com a minha voz, se me tivessem respeitado como indivíduo que sou, aquele acumulado de mal-entendidos, seguido de atos de injustiça, nunca teria acontecido. E talvez que a minha revolta e as asneiras que se lhe seguiram, que ultrapassaram tudo, se tivessem acalmado. Talvez...
Após este traumatismo, tentei explicar aos meus pais o que tinha sentido. Mas não consegui fazê-lo logo, de tal maneira estava chocada. Acabei por lhes contar globalmente, mas aquilo que senti em profundidade, as sensações que tive, foi impossível. Tinha a impressão de que a minha alma de criança fora violada. Era mesmo essa a ideia que me enchia a mente. Tinham quebrado uma imagem protectora, de segurança, de confiança.
Foi como um rasgão. Mas na altura não encontrei as palavras apropriadas. Ainda hoje digo " violação,", " rasgão ",, mas não sei se são as palavras exactas. Acho que ainda é pouco. Talvez os meus pais não tenham entendido bem aquilo que tão violentamente me atingiu. Houve sofrimento, humilhação, injustiça, raiva. Os polícias estavam enganados acerca de mim, no fundo tinham-me tomado por uma débil mental que sofre sem compreender e eu apercebia-me do desprezo manifestado no seu
comportamento. Isso feriu-me profundamente.
Eu berrava atrás das grades para pessoas que se negavam a ouvir-me. Não consegui ultrapassar a situação, não consegui readquirir a confiança. A injustiça é algo de horrível. Quando se está