O voo da Gaivota 1 | Page 77

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" Ah! Isso não é nada comigo, eu só trato da transferência dos menores, não me dizem porquê.,"
O meu pai está francamente furioso. Discute com os chuis. Diz que vai apresentar queixa, alertar advogados e a imprensa.
Mas acabou por não o fazer, porque Maria teve um grave acidente na estrada e ficou no hospital, onde os meus pais permanecem todo o dia à sua cabeceira.
O meu pai quer levar connosco a minha amiga, cujos pais surdos não foram ainda avisados. Mas o polícia não deixa.
" Ah! Não, os pais dela têm que vir aqui. " Mas como é que os vai prevenir?
" Não há problema, nós tratamos disso. Não lhe compete a si levá-la, não é pai dela."
Não há nada a fazer. Custa-nos muito deixá-la lá ficar.
A pobre rapariga disse-me mais tarde que tinha ficado até à noite à espera que os pais chegassem. Tinha sido preciso telefonar a um vizinho, o qual por seu turno preveniu outro, e por aí fora. Mais um dia, até os pais serem informados pela polícia!
Os rapazes também foram presos, mas eles sempre tinham um certo sentimento de culpa. Não sentiram isto tanto como eu, que fiquei muito traumatizada com esta história. Chuis e gente que ouve passaram a ser pessoas contra quem combater. Aos treze anos, no estado de revolta em que eu me encontrava já, ficaram marcados. Naquela altura da minha vida, eu teria precisado duma imagem que me desse segurança, que fosse positiva, da polícia, da sociedade que ela representava, no fundo: do mundo que ouve.
O desprezo que aquela gente demonstrou deixou-me marcas profundas. Nunca esqueci aquele episódio. Já não podia confiar em ninguém. Havia o mundo deles e o meu. O mundo deles metia-me na cadeia recusando-se a comunicar comigo. Sem fazer o menor esforço para compreender. Parecia que o mundo da minha infância tinha ressurgido. Foi um autêntico filme de terror, aquela prisão. A minha imaginação já não tinha limites. Interrogava-me sobre o que é que aqueles chuis iriam inventar, o que é que nos iriam fazer. Deviam estar a tramar algo de horrível, os meus pais nunca mais me encontrariam. Era de novo o isolamento, a incomunicabilidade,