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" Estou com o saco cheio de sins! Basta!"
Agarro o telefone mesmo debaixo do nariz daquela estúpida mulher, marco o número sempre aos gritos, e de tal maneira não suporto mais aquela situação que tenho os olhos cheios de lágrimas.
Fale... suplico-lhe, fale..." Devoro-a com os olhos. E finalmente resulta, Ela fala.
Fala com alguém em nossa casa. Ao fim de um período que me pareceu bastante curto desliga. E percebo que falou com o meu pai, e que ele vem buscar-me, finalmente!
A minha garganta descontrai-se, a minha fúria acalma. E a minha amiga? Os pais dela são surdos, como é que podemos telefonar-lhes? O meu vai tratar disso.
Estamos numa esquadra para menores, há muita gente nova. Entretanto, tento comunicar com outra rapariga que espera como nós. Ela explica-me que fugiu de casa. Eu conto-lhe em poucas palavras a história da sangria, do pub e do metro. A mãe dela chega, furiosa, com cara de má. Discute com os chuis enquanto a filha fica calada. à espera. Derepente a mãe dá-lhe um estalo, vejo que ela fica com o nariz a sangrar.
O meu pai irá bater-me também? Os meus pais nunca me bateram, mas numa situação destas o que aconteceu àquela rapariga pode acontecer-me a mim. Por que é que a mãe lhe terá batido? Não tem lógica. Não compreendo. Não concebo que haja violência entre mãe e filha.
E sinto-me bastante perturbada. Já não raciocino com lógica. Fico cheia de medo que o meu pai me esbofeteie quando chegar.
Mas não. Toma-me nos braços e eu choro, choro...
Em seguida explico-lhe tudo o que aconteceu. Tudo, a sangria, o metro, o pub, a noite na cadeia. E os chuis que não quiseram telefonar. Aquele maldito telefone!
Claro que os meus pais estavam terrivelmente inquietos, de manhã iam prevenir a polícia quando eu finalmente consegui pôr a funcionar o maldito telefone. O meu pai fica furioso. Exige explicações.
Os chuis desfilam diante dele.
" Não é a mim que compete avisar os pais dos menores. Eu só os acompanho..."