O voo da Gaivota 1 | Page 75

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A prisão, mesmo acompanhadas, aterroriza-nos. E porquê aquela injustiça? Porquê aquela impossibilidade de nos fazermos entender? Por que não previnem os nossos pais? O que é que eles querem? Sentimo-nos umas desgraçadas, miseráveis, humilhadas. Fúria e medo, desespero e angústia. Aquele tugúrio
malcheiroso. E a noite que avança lentamente, em silenciosa escuridão. O que é que podemos fazer? Bater, dar pontapés na porcaria daquela porta? Eles querem lá saber. Desde o princípio que se estão a marimbar para nós.
Recomeçar a gritar? Já não tenho forças. Estou desorientada, perdida. Nem sequer sei onde estou. Em que prisão? Sinto-me acabrunhada, com o pressentimento de que vou acabar ali os meus dias, porque ninguém me vai ouvir, porque ninguém avisará os meus pais. Estou sequestrada. Somos reféns daqueles chuis que ouvem e nos desprezam. Perceberam que éramos surdas. Viram-me suplicar, têm os meus documentos, sabem a minha idade. Mesmo que achassem que eu tinha cometido um crime horrível não têm o direito de não informar os meus pais!
Meteram-nos aqui dentro como se fôssemos cães raivosos! Como se fôssemos animais sarnentos a quem não se dirige a palavra, que se empurram, que se arrastam à força e a quem se grita: " Cala a boca!"
Odeio-os. Tenho medo deles e odeio-os.
Já noite alta adormecemos exaustas. De manhã duas mulheres acordam-nos. Recomeço a explicar que não fiz nada e que quero que telefonem aos meus pais. A mulher continua a não querer ouvir-me. Pretende, sim, pôr-nos as mãos atrás das costas para nos algemar! Agora estou algemada! Prendem-me e continuam a recusar ouvir o que tenho a dizer.
Lá fora empurram-nos para dentro dum carro, sempre algemadas. Para irmos aonde? Falam entre si, mas não entendo.
Vamos parar a outra esquadra e recomeça a papelada. E eu recomeço o que fiz na véspera. Explico, explico até perder o fôlego, até me doer a garganta, até ficar com a boca torta.
Telefonem aos meus pais..."
E de repente digo basta. A fúria substituiu o receio. Estou saturada que acenem que sim, que sim, com a cabeça, como se eu fosse uma atrasada mental. Dou um berro: