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" Suicídio. Uma pessoa pode enforcar-se com um atacador."
Apanho mais um choque, terrível. Desta vez sinto-me invadida pela angústia. O negro desespero, o mais profundo. Estou de facto presa, como uma criminosa. Retiram-me os atacadores como o fazem aos assassinos! Neste local tudo é sinistro. Cheira a desespero e a morte. E os meus pais sem saberem de nada.
Devem julgar que desobedeci, que me deixei ficar na festa ou que estou com o meu amigo, não sabem sequer para onde telefonar, para casa de um surdo, para perguntar a quem não saberá responder: " Sabe onde está a Emmanuelle?"
A mulher pergunta-nos se queremos comer alguma coisa, um tomate, um ovo... Não tenho fome. A minha amiga também
não. Então levam-nos para uma sala enorme. A meio, uma escada conduz a um corredor com celas de um lado e do outro.
A freirinha vai na frente com um enorme molho de chaves. Há raparigas amontoadas noutras salas. Chego a perguntar a mim
mesma se nos estará a mostrar tudo aquilo para nos assustar.
Abre a porta de uma cela, com uma luz frouxa, e empurra-me em frente, sozinha.
" Quero ficar com a minha amiga!",
Ela recusa. Pretende separar-nos. Então eu ponho-me aos gritos, aos gritos, aos gritos. Uma gaivota a gritar na tempestade. Nunca aguentaria ficar fechada ali dentro! Quero a minha amiga, estou cheia de medo. Toda a noite entre aquelas paredes nojentas, sem ela, sem poder falar com ninguém, nem pensar!
Grito tanto que a freira cede.
Clac. Ficamos as duas presas. Há duas camas de ferro sobrepostas, não há lençóis, há umas colchas cinzentas dobradas em quatro. Um buraco imundo serve de retrete e um lavatório que é uma porcaria. Agarramo-nos uma à outra, unidas pelo terror.
O que irá acontecer-nos agora? Ninguém nos disse nada.
Quanto tempo ficaremos ali fechadas? E os nossos pais? Onde é que estamos?
Tudo aquilo é um autêntico pesadelo. O pânico é total.