O voo da Gaivota 1 | Page 86

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Nunca mais roubei. Se aquela mulher não me tivesse apanhado talvez eu continuasse, por bravata, mas o facto de ter sido apanhada e a vergonha, caso os meus pais viessem a saber, forçaram-me a tomar consciência do que andava a fazer. Senti-me culpada e responsável. Um pouco culpada. Um pouco responsável.
Eu estava longe de ser uma santinha. Era difícil. Era dura, combativa, revoltada. Precisava de fazer experiências para apanhar com elas no rosto e decidir se devia ou não continuar.
Quanto ao roubo, tinha-se acabado. De uma vez por todas. Gaivota ladra.
16 Contatos De Veludo
As mães têm olhos de gato e orelhas não-sei-de-quê. Mesmo que de madrugada eu entre em bicos de pés, já a minha está acordada.
" Então, está tudo bem? Voltaste sem problemas?" " Está tudo bem, mãe, dorme... está tudo bem, dorme."
Está tudo bem, é fácil de dizer. Quando se volta para casa sozinha às quatro da manhã corre-se forçosamente alguns riscos.
Ao sair duma boite apanho um táxi para regressar a casa.
O motorista arranca, mas quando paramos num semáforo volta-se para mim e pergunta bruscamente:
" E se fôssemos para um hotel?"
Por quem é que ele me toma? Devo parecer espantada, sem dúvida, pois ele insiste, virando a cabeça para me ver:
" Não te aflijas, que eu pago-te!"
Que situação difícil! Não é propriamente medo, mas mesmo assim... Tento disfarçar, dar-lhe a volta da melhor maneira: u... e ainda por cima sou surda, não podes fazer-me uma coisa destas! Não tens pena de mim?",
O semáforo fica verde, o homem não arranca e volta a insistir. Não percebo tudo quanto diz, mas a ideia é clara. Zango-me um pouco:
" Vá lá... olhe o taxímetro a contar, avie-se, sou eu quem paga."