O voo da Gaivota 1 | Page 71

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14 Gaivota Engaiolada
Grito, digo palavrões, estou-me nas tintas. É gritando que manifesto a minha fúria. Toda a gente percebe que estou danada. Mas perante a injustiça e a humilhação não consigo dominar a raiva. Dói-me.
Tenho treze anos, a minha colega quinze ou dezasseis; seja como for, continuo a ser a mais nova do grupo.
Planeamos uma almoçarada para a uma da tarde e prometo regressar às quatro. E como prometi o melhor que tenho a fazer é cumprir com a palavra dada, já tenho aborrecimentos que cheguem.
No momento da partida, as coisas complicam-se. A minha colega bebeu sangria, os dois rapazes que estão connosco também. Eu não bebi nada. Aos treze anos não bebo nada alcoólico. Metemo-nos os quatro no metro. A sangria começa a fazer os seus efeitos. A minha colega ri, faz figura de idiota e os rapazes também. Na carruagem as pessoas olham-nos de través.
Quatro jovens surdos que se " portam mal ". Aos olhos deles gesticulamos de mais, fazemos demasiadas caretas, rimos exageradamente. Já por várias vezes que me apercebi de um
certo recuo em relação a nós, como se Lhes metêssemos medo.
Já não sei quem começou, se a minha colega se um dos rapazes. Na carruagem há pequenos anúncios publicitários encaixilhados. Um deles quer o cartaz e arranca-o da moldura.
A única coisa que todos queremos é motivo para uma grande risota, mas uma senhora idosa que nos observa desde o início assusta-se e puxa o sinal de alarme. O metro pára e o revisor sobe e diz:
" Não têm o direito de fazer uma coisa destas."
E começa o terrível mal-entendido. Tento explicar que a minha amiga bebeu um pouco de sangria a mais, que não tem culpa. O revisor não percebe nada e um dos rapazes do nosso grupo, surdo e levemente toldado, intervém. Começa aos berros com o revisor, que chama a polícia. Os rapazes ainda ficam mais nervosos.
E eis-nos os quatro diante dos " chuis " a tentar em vão explicar o porquê da " tolice ". Eles não querem saber. O corpo de delito foi arrancado do metro, está ali, bem visível; a única coisa que lhes interessa é aquela prova do nosso comportamento de vândalos.