O voo da Gaivota 1 | Page 70

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Há de tudo no nosso grupo: gente bem e gente menos bem, os " bem-educados " e os que não receberam a menor educação.
Há vadios, traficantes, arranjistas, colegas, rapazes e raparigas do liceu... Trata-se de uma comunidade de adolescentes com os problemas comuns da idade, acrescidos da surdez. E não tínhamos outro local para os nossos encontros.
Todos aqueles rapazes e raparigas de diferentes idades, de diferentes etnias, de diferentes meios sociais, falam por gestos até perderem o fôlego. Contamos uns aos outros filmes, programas de televisão, histórias e boatos sobre uns e outros. Rimos, fumamos, " chateamos " o burguês que ouve e que passa com um olhar de reprovação. Interpelamos o papalvo que pára, surpreendido, porque nunca viu surdos a falar com as mãos, a mexerem, a fazer caretas, a mimar, gritando num riso silencioso no meio do barulho ensurdecedor das rodas do metro. Rimos dos atiradiços que ouvem e que retiram à francesa assim que lhes dizemos por mímica: " Sou surda, o que é que queres?"
Organizamos reuniões, com música aos berros, em casa uns dos outros. Vamos a boites, igualmente com a música aos berros, bebemos, fumamos uns charros.
Invadimos os McDonald ' s, os restaurantes gregos, os bares.
É uma necessidade. A enorme necessidade de nos encontrarmos uns com os outros, iguais, surdos e livres de o ser.
Apago toda a autoridade e o poder que os meus pais tinham sobre mim.
Se me tivessem fechado em casa, teria fugido. A minha revolta, naquele tempo e o meu amor por aquele rapaz, ter-me-iam feito saltar todos os obstáculos. Com risco de me perder.
E foi por pouco.
No fundo, eu precisava dessa revolta como duma fonte onde matar a sede.
No fundo, devo ter amado mais o amor do que propriamente aquele rapaz.