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Gosto DELE. Gosto de tudo NELE.
Começo a chegar tarde, a faltar às aulas, os meus pais dão por isso e tentam impor-me alguns limites. Mas já é tarde, não ligo nenhuma. Não estou atenta ao perigo, salto por cima dos limites, quero ser eu mesma a descobri-los.
Para cúmulo, acho que os meus pais foram pouco hábeis naquele período. Não me dão a descompostura da praxe. Tentam conversar, falar sobre o que está a acontecer. Proíbem, mas por outro lado fazem concessões... e aquilo não resulta.
Saio da escola às quatro horas, terei que estar em casa às cinco; e em seguida já é às cinco e meia, ou às seis, e depois às sete horas... A mãe diz:
" Atenção às horas, não venhas muito tarde, tens deveres para fazer, olha que a escola é importante."
O pai diz: " Quando vens mais tarde deves avisar." E eu gesticulo zangada: Aviso-os como? Não posso telefonar porque sou surda!"
" Estás a exagerar, podes pedir a alguém que telefone. É uma maçada."
Ele tem razão, eu podia perfeitamente fazer isso, mas não me apetece. Refugio-me atrás da minha surdez para justificar esta sede de independência. Talvez inconscientemente, para que os meus pais se preocupem. É uma maneira de os fazer compreender que não me sinto bem na minha pele, que as coisas não vão bem, que se procuro a aventura e a liberdade é para queimar as minhas asas de criança. Queimar todos aqueles anos em que dependi deles para tudo. Do seu amor protector, educador. Habituada a não falar senão com eles, a não fazer perguntas senão a eles.
A comunidade de colegas surdos oferece-me essa liberdade.
Com eles, sinto-me em casa, no meu planeta. Conversamos horas seguidas na estação de metro de Auber. Aquela estação é o local dos nossos encontros. A nossa base de revoltosos. Pura e simplesmente, a nossa base de família. Um território. Actualmente, tudo isso se passa na estação de metro de Chatelet.