O voo da Gaivota 1 | Page 68

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Amo um surdo, passo o meu tempo com surdos. Os meus pais foram excluídos.
Nenhum deles esperava que a célebre crise da adolescência me atingisse tão cedo. E ainda menos que eu reivindicasse àquele ponto uma história de amor.
Mergulho no amor e na revolta como se mergulha no mar, deliciada e sem medo, nem das ondas nem do abismo que dança vertiginosamente a meus pés.
Desejo-o. É mais velho do que eu quatro anos, moreno com os olhos azuis. É musculoso, sólido, amo a sua faceta um pouco selvagem, marginal. É surdo e gestualiza em calão, a linguagem da rua. É bonito? A mãe diz:
" Um pouco vadio." É verdade. Maria diz: " Também pode estar armando algo." E isso também é verdade. O pai diz: " É violento. Deixa-o, é uma má companhia." É verdade. Mas não o deixo. Pelo contrário, respondo torto: " Cala-te, bico calado, eu gosto dele!"
Beijámo-nos pela primeira vez ao sair da escola. Um encontro às escondidas, atrás das árvores duma praceta, no meio de baloiços, tobogãs, brinquedos de crianças.
O beijo. Eu ignorava o beijo. Iria eu gostar daquilo? Do sabor de outra boca?
As raparigas da minha aula, mais velhas do que eu, entre os quinze e os dezasseis anos, tinham-me explicado. Entre surdos diz-se tudo, pergunta-se tudo. E eu queria ser tão " atrevida "
como elas no que respeita ao amor, queria ficar ao mesmo nível. Deram-me pois " aulas " sobre o beijo. Portanto, em teoria, eu sabia. Na prática é que não.