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O amor é ultrapassar-se a si mesmo, tentar aceitar o outro tal como ele é. Com as suas diferenças.
O amor é ilimitado. Sinto-o pela minha irmã, pela minha mãe, pelo meu pai. E sinto-o agora também por outra pessoa.
E é diferente. No grande A, há múltiplos amores diferentes.
Procuro o amor como se fosse mais velha. Tornei-me numa jovem adulta, demasiado depressa, dir-se-ia que envelheci em acelerado. Passei de uma infância superprotegida para uma adolescência bulímica de aventura e liberdade.
Não, não tive uma infância infeliz. Não foi horrível. De início estava como que encurralada, bloqueada, presa, mas mais tarde vim a poder exprimir-me e os meus pais amavam-me.
Aceitaram-me sendo diferente e tudo fizeram para partilhar comigo essa diferença. Conheço crianças surdas que tiveram uma vida bem pior do que a minha. Sem amor, sem comunicação, no deserto afectivo total. Eu, aos treze anos, com a sorte de ter tido estes pais. E eles, pobres surdos, infelizes a todos os níveis.
Para mim a palavra " revolta " significa experimentar tudo, ver tudo, entender tudo. E fazê-lo sozinha.
Talvez agarrar alguma coisa que me tivesse faltado, mas não vejo bem o quê. Não me faltou nem amor, nem compreensão, nem ajuda. Então? Não sei, é algo físico. Agarrar a liberdade?
A independência?
Os meus pais andam inquietos. Por eu sentir esta revolta e também por eu ser surda. Sobretudo a minha mãe, tem medo de que eu lhe escape, medo de que eu já não dependa das pessoas que ouvem mas sim dos outros, dos surdos, e que nesse campo ela já não consiga ter controlo sobre mim. Enfim, que eu já não esteja em segurança.
Com o meu pai o relacionamento tornou-se difícil. Já não comunicamos. Ele tem os seus problemas e eu os meus. Entre nós o combate dá-se em silêncio, ou seja, o clássico desafio pai-filha, adulto-adolescente.
De uma certa maneira, transfiro-o também para o combate " ouvinte-surdo ".