O voo da Gaivota 1 | Page 66

66
Passo horas a sacudir os cabelos, que me caem pelas costas abaixo, a puxar os caracóis que me dão pela cintura, a abanar a cabeça como as estrelas da televisão. Mastigo lentamente pastilha elástica com ar enfadado. Encharco-me de perfume de
baunilha a ponto de enjoar toda a família. É a minha revolta baunilhada.
O meu corpo mudou, sinto a minha transformação em mulher. Descubro o prazer da sedução. Descubro os homens. Antigamente a figura masculina era representada pelo meu pai.
Agora percebo que há outro tipo de relação com os homens. Há a sexualidade.
No nosso bairro vive um rapaz que se põe à espreita para me ver e eu também me ponho à espreita para o ver a ele. É a minha paixão baunilhada. O meu amor de aroma forte, intenso, diferente do meu amor pela família, o meu amor exótico. Aquele de que ninguém me falou antes, que eu descubro por acaso.
Aquele que me proíbem e, portanto, de que tenho mais vontade e que agarro por instinto.
Gosto dos meus pais, da minha família, mas tenho necessidade de outro tipo de amor. Já não aceito a autoridade dos meus pais.
E deixei de Lhes fazer perguntas. Faço-as todas ao meu amor surdo. Eles falam de limites, do que é razoável, de normas, dos direitos que tenho ou que não tenho de fazer determinada coisa.
Os meus direitos, tenho-os eu na minha cabeça.
O amor é um direito imprescritível. Apaixonar-me aos treze anos, reconheço agora que foi um pouco cedo, mas acontece.
Romeu e Julieta tinham quinze anos. E não foi um amor superficial, foi um obstinado e grande amor, forte e violento, que preencheu três anos da minha vida.
Três anos de " sentimentalismo ". Para mim, sentimentalismo é o conjunto do amor, o da cabeça, do coração e também o do corpo. A paixão e a necessidade do outro, a confiança total.
É dar e receber, mas essencialmente dar. Creio que se pode dar tudo no amor. E que é preciso aprender a receber.