O voo da Gaivota 1 | Page 65

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E assim resolvo virar-lhe a cara. Faço a minha revolução pessoal.
Passar a vida na escola ê ridículo. As horas mais importantes da minha vida são afinal perdidas numa prisão. Tenho a impressão de que não gostam de mim, de que não consigo progredir. E que tudo aquilo não serve para nada.
O futuro é algo de misterioso. Não sei o que será. Nem quero saber. Digo para comigo: " Vou deixar tudo isto de lado, por agora."
Entretanto, sonho com viagens, com longas caminhadas intermináveis, ir ver outros países, outras culturas, outras gentes.
Sonho com a VIDA. Não escuto ninguém. Até mesmo os erros, gostaria de os conhecer. Bem podem dizer-me: " Cuidado com isto, cuidado com aquilo... olha que te enganas."
Aos treze anos sou contra o sistema, contra a maneira como as pessoas que ouvem gerem a nossa sociedade de surdos.
Tenho a sensação de ser manipulada, que querem à força apagar a minha identidade como pessoa surda. No liceu é como se me dissessem:
" É preciso que não se dê pela tua surdez, tens que te esforçar por ouvir com o aparelho, tens que falar como as pessoas que ouvem. A língua gestual não é bonita. É uma língua inferior.,"
É essencialmente contra essa estupidez que se ergue a minha revolta. Foi o que ouvi dizer durante toda a minha infância; e calei-me até ao momento em que rebentou esta espécie de fúria.
Aos treze anos expludo. Sou contra tudo. Quero o meu próprio mundo, a minha própria língua e que ninguém interfira na minha vida.
A surdez é a única " deficiência," que não se vê. Vêem-se pessoas em cadeiras de rodas, percebe-se logo se uma pessoa é cega ou mutilada, mas a surdez não se vê e por conseguinte os outros querem apagá-la uma vez que não é visível.
Não compreendem que os surdos não tenham vontade de ouvir. Querem-nos semelhantes a eles próprios, com os mesmos desejos, com as mesmas frustrações. Querem preencher uma lacuna que nós não temos.
Ouvir quero lá saber Não me apetece, não me faz falta, não sei o que é. Não se pode desejar uma coisa que se ignora.