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Frustração. Também Maria a sentiu. Era ainda muito pequena, teria talvez um ano... a cronologia daquele tempo continua para mim muito vaga. Foi depois do nosso regresso de Washington, isso sei eu. Uma noite, convidámos lá para casa o Alfredo Corrado e dois amigos dele. à mesa só falamos por gestos. Conversamos, os meus pais estão ainda pouco treinados,
enganam-se, pedem um esclarecimento e recomeçam. O Alfredo ri, eu rio, é tão bom poder falar a sua língua, uma pessoa sente-se segura, confiante. De repente Maria trepa para cima da mesa e faz uma birra, a bater com os pés. Grita e chora. Alfredo fica surpreendido com tanta violência. Aquela coisinha histérica num desespero infernal deixa-o aparvalhado.
Maria só quer chamar a atenção. Só quer que não se esqueçam dela. Que se lembrem que ela ouve! Aquela conversa cúmplice que ignora a sua existência deixa-a furiosa.
Como eu a compreendo! Eu, aos cinco anos, sentia-me totalmente excluída à mesa. Todas aquelas bocas a falar depressa, aqueles peixes mudos agitando-se num aquário, deixavam-me completamente à parte, no isolamento absoluto. É a vez de Maria estar farta de gestos. Ou simplesmente farta.
Antigamente falavam com ela; agora fazem gestos para mim. Ciúmes? Não, frustração. Sei bem o que é. Uma forma de lembrar aos outros que se existe.
Deitei fora o meu aparelho quando ela começou a tocar piano com o meu pai. De boa vontade lhe fecharia a tampa em cima dos dedos. Dos dedos do meu pai ou dos de Maria? Nos dedos daquele maldito piano que fala sem mim àqueles que amo.
Piano solo. Emmanuelle solo.
13 Paixão de Baunilha
Decidi não fazer mais nada nas aulas. Estou saturada daqueles cursos, saturada de ler nos lábios, saturada de me esganiçar para fazer sair os guinchos da minha voz, saturada de história, de geografia, até do francês, saturada de professores que só me desencorajam, que não param de ralhar comigo, saturada de mim mesma no meio dos outros. A realidade desgosta-me.