O voo da Gaivota 1 | Page 63

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ser ela a prevenir por mim, se preciso de mudar a hora de um encontro é a mesma coisa.
Naquele tempo, ainda não tínhamos Minitel, só o tive aos quinze anos. Maria era o meu telefone falante. E assim foi durante toda a minha adolescência, até à chegada do Minitel.
Conto-lhe os meus segredos, não todos, com quem saio ou não saio, ou com quem deixei de sair. Não tem outro remédio.
E lá se arranja a maior parte das vezes. Vai crescendo ao mesmo tempo que eu, tem uma vida dupla, em muitos aspectos diria que a dobrar. Maria é... Maria é minha irmã. Gosto muito dela.
É verdade que a arrelio bastante. Talvez por ciúmes. Não, ciúmes não é a palavra certa. Frustração. A Maria tem uma relação com o meu pai que eu não consigo ter.
O piano é o símbolo dessa dolorosa frustração.
Começou a tocar muito cedo. Estamos na sala e Maria toca com o meu pai. Dantes, era eu quem me sentava a seu lado.
Ouvia-o tocar, tentava captar os sons agudos, os sons graves.
O aparelho auditivo não tem nessa matéria o menor préstimo, como aliás para tudo o resto, mas mesmo assim eu escutava a música do meu pai.
Agora é Maria. De repente fui excluída. Sentem-se cúmplices diante daquele instrumento do qual ouvem a mesma coisa.
As mãos deslizam sobre o teclado, sorriem, inclinam as cabeças, falam-se, ouvem-se um ao outro. É como que uma história de amor entre eles. E eu vejo passar o amor na música que tocam. É insuportável. Arranco o aparelho e vou-me embora, não aguento mais. Ela tem a sorte de partilhar aquilo com o meu pai e eu odeio aquele piano. Tenho-lhe um verdadeiro horror.
Da primeira vez disse qualquer coisa, manifestei o meu desagrado nem sei como. Em seguida, passei a ir sozinha para o meu quarto. Sofrendo pela exclusão. Pela diferença. Impossibilitada de alcançar o meu pai no mesmo terreno que ela, o da música.
A música que apesar de tudo ele me deu, a quem devo o poder senti-la, que me permite vibrar, dançar. Mas aquela música que era só de nós dois, deixou de o ser.