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traduzir a conversa; aborreço-a, atormento-a se se esquece e não me transmite o que se passa. Por vezes manda-me passear. Ou me irrito ou a compreendo, depende do momento.
E por vezes temos zangas a sério, por causa do telefone, por exemplo.
" Maria, faz-me um telefonema!" " Estou farta! "
" Podias ao menos pensar um pouco na tua irmã surda! Para ti é fácil, e põe-me de lado!"
" Serves-te de mim o tempo todo! Utilizas-me!"
Aquela miniatura de mulher com cinco anos fala como um livro aberto: diz que eu a " utilizo!"
" Maria... fiquei de me encontrar com uma colega! Vai lá telefonar! " E a briga dura até que ela acede e faz o que eu lhe peço.
O telefone é um instrumento que eu adoro e odeio ao mesmo tempo. Tenho ciúmes daqueles que o usam com toda a facilidade. Tenho ciúmes porque aos treze anos começa a conviver-se mais com as colegas e para os surdos o telefone tem sempre que ter um intermediário que oiça. Maria telefona para a minha colega, atende a mãe ou o pai, fica aflita, não gosta de ter que dizer:
" Desculpe, eu queria falar com fulana de tal, da parte da minha irmã Emmanuelle. Por favor diga-lhe que..."
Os pais não precisam de saber tudo... Em seguida, tem que me transmitir a conversa integralmente, tudo o que foi dito.
Acho sempre pouco. " Não te disseram mais nada?"
" Não, nada. A mãe disse que ela não estava e que te falaria mais tarde."
" Quando?" " Sei lá! Mas que chata!"
Compreendo que esteja saturada. Os meus pedidos são constantes, num sentido ou noutro. Se não posso ir a um lado qualquer, tem que