O voo da Gaivota 1 | Page 61

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habituámo-nos a trocar em língua gestual um certo número de informações, persuadidos de que ele não se apercebe, uma vez que não vê. Ora, ao princípio, ele voltava-se sempre que isso acontecia, o que nós estranhámos, sem de início percebermos a razão. Com a continuação, apercebo-me de que ao falar com as mãos emitimos ligeiros ruídos com a boca sem nos apercebermos. Então, a partir daí, tomamos toda a atenção para não emitir o menor som e desde então passámos a fazer o intercâmbio de correcções perfeitamente tranquilos.
Não era lá muito bonito? Talvez não; mas o fato de não compreendermos em geral se não metade dos ensinamentos oralistas e o facto de " ser proibido proibir "... faz com que tenhamos que nos desenvencilhar!
12. Piano Solo
Vou fazer brevemente treze anos e Maria cinco. Maria tornou-se o meu alter ego, a minha referência, a minha cúmplice.
Aprende tudo com uma rapidez vertiginosa. Faz os gestos com uma incrível energia, espantosa para as suas mãos pequeninas.
E fala igualmente bem. Maria, meu geniozinho de cinco anos, minha irmã adorada, minha muleta!
Desde que nasceu que me dediquei a ela de forma um pouco possessiva. Mas preciso dela. Sirvo-me dela como de um utensílio, um imprescindível acessório. A nossa relação é privilegiada.
Preciso dela para crescer, de facto. Sozinha, não sei como teria crescido. Na adolescência tenta-se prescindir dos pais, não lhes fazer demasiadas perguntas- e foi Maria quem tomou as rédeas. Com o andar do tempo, tornou-se completamente bilingue. Fala por gestos como um verdadeiro surdo.
Os surdos têm aquela maneira especial de acompanhar os gestos com ligeiros ruídos de boca. Ver Maria com três palmos de altura a fazer gestos, abrindo muito os dedinhos e articulando cada palavra... era um espectáculo delicioso. Passo momentos maravilhosos com ela mesmo que acabemos a puxar os cabelos uma à outra. Com ela aprendo o que é partilhar, fazer confidências, brigar, o ódio e o amor.
Com ela, torno-me uma pedinte mais ou menos de tudo. De tudo o que não posso fazer. Quando estamos à mesa, ela tem que me