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Mais tarde fiz uma demonstração numa classe onde os alunos gestualizavam entre si( era impossível proibirem-nos de o fazer!) mas não com os professores, visto ser essa a regra.
Tive uma boa nota a francês e o professor convida-me a tomar o seu lugar para explicar aos alunos que não compreenderam o assunto. Vou ao quadro e começo a exprimir-me em língua gestual. Logo no princípio da minha demonstração, o
professor interrompe-me. Acusa-me de estar a " facilitar," e exige que me exprima oralmente. Sinto-me ridícula. Nunca me
senti tão ridícula. Os alunos olham para mim e riem, sem compreenderem nada daquilo que tento dizer-Lhes.
Ao fim do que me pareceu uma eternidade, paro abruptamente. Não só me sinto infelicíssima como estou a fazer perder tempo a toda a gente. Peço ao professor que tenha " a extrema gentileza " de me conceder cinco minutos para comunicar precisamente a mesma coisa, mas desta vez por gestos. Convencido de que não tenho nível suficiente para o conseguir, julgando que a minha língua é " inferior ",, limitada, dá-me autorização, achando por certo que com isso iria demonstrar aos meus próprios olhos a minha incapacidade. Quanto aos alunos, fitam-me sorridentes, com olhos redondos, brilhantes de malícia. Habitualmente, só praticamos entre nós a língua gestual para fazer batota, no recreio ou na rua. Aquela pequena revolução que eu consegui é importante. Conseguirei que compreendam aquilo
que não entenderam com a explicação oral do professor?
Escutam-me atentamente. O meu raciocínio é claro, a explicação convincente, os alunos estão encantados. O professor recusa-se ainda a acreditar que eu tenha conseguido explicar tudo tão bem e tão depressa.
" Perceberam?"
O " sim " é unânime. Duvidando ainda, pede a um aluno em tom irónico que venha explicar oralmente aquilo que pretende ter entendido. O aluno cumpre o solicitado e o professor, atónito, disfarçando o embaraço, mais uma vez se refugia na habitual má-fé. E continua a aula oralmente, pretendendo esquecer o que acaba se passando.
Naquele contexto escolar de proibição, o professor está, na minha opinião, contra o aluno, e logicamente o aluno fica contra ele. E qual é o resultado? Quando um professor se vira para escrever no quadro,