59
meu partido. Aquela injustiça é como uma pedrada no meu coração. É preciso que os educadores, os professores de liceu, os professores da primária que queiram assumir essa responsabilidade, possam livremente fazê-lo. Estão todos na origem da construção e do equilíbrio psicológico, afetivo e nervoso das crianças surdas.
O Estado não deve considerá-los uns fora-de-lei. É preciso que cada um possa escolher. Ora não é o caso. Continuam a encher a cabeça dos pais com a fórmula: " Obriga-o a falar, que ele falará."
Embora só com onze anos, já na altura me apetece gritar contra esta situação. Que continua. Tenho colegas cuja infância foi duríssima, uma autêntica provação. Lembram-se de ter deitado os aparelhos auditivos na sanita; já não os suportavam. Alguns não comunicam de todo com os pais, ficaram incapazes de o fazer. Conheço um rapazinho que se tornou violento, selvagem, puxava os cabelos à mãe para comunicar com ela, rebolava-se no chão, na lama, onde calhava. Sentia-se de tal forma impotente no seu isolamento... Algumas crianças dizem-me na escola:
" A tua mãe é formidável, ela gestualiza!",
Como é evidente, os pais deles não sabem nada acerca desta língua. E nestas condições como é que eles conseguem exprimir as suas angústias, os seus pequenos problemas, os seus sentimentos? Como é que se pode permanecer calmo quando
não se pode contar à mãe um pesadelo ou fazer-lhe perguntas tolas tais como: " O que é isto?", Para que serve esta coisa?", " Por que é que me dói aqui ", " Aquele senhor com uma bata e um aparelho à volta do pescoço, o que é que faz?"
Como é que se vive quando não há resposta ou então a resposta é: " Lê nos lábios,", " Compreende o que puderes ", " Arruma de qualquer maneira na tua cabeça ",, " Leva anos a pôr as coisas no sítio ", " Fala, tens uma voz esquisita e não te entendemos, mas fala, que hás-de conseguir ", " Não tires o aparelho; articula; imita-me ",. Ou seja: arranja-te como puderes para te fazeres à minha IMAGEM.
Na minha primeira infância sentia-me uma estranha mesmo no seio da minha própria família. Colegas meus tinham o mesmo problema. Para mim, acabou; para eles, continua. Não têm boas notas na escola e para mim esse insucesso escolar deve-se à estúpida lei que proibe a LSF, lei contra a qual eu luto.