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Não obtenho resposta. Com os olhos esbugalhados, o outro fita as minhas mãos como se eu estivesse a falar chinês. Nenhum deles aprendeu a gramática, as inversões, as devoluções, toda a estrutura do meu idioma, como a configuração do gesto, a orientação, a colocação, o movimento da mão, a expressão do rosto. A partir desta estrutura, desta gramática, posso exprimir milhares de gestos, do mais simples ao mais complicado. Basta por vezes modificar ligeiramente um dos parâmetros, a orientação ou a colocação, ou ambos, etc. É infinito.
Os olhos espantados do miúdo que me fita denunciam a maior estupefacção. Um outro pergunta-me como me chamo.
Respondo-lhe em dactilologia. Os olhos dele ainda se abrem mais. Também ignoram a dactilologia, aquele alfabeto criado pelo abade de 1 ' Épée, que se escreve no ar com uma só mão.
No segundo dia, determinada a fazer face àquela situação, começo a distribuir no liceu os alfabetos que explicam a língua dos surdos. Foi um escândalo! Uma provocação! Fui imediatamente chamada à administração, que me colocou no meu lugar.
Gentilmente, mas no meu lugar. Não está previsto que eu me comporte aqui como uma activista, uma líder sindical, como cabecilha de uma revolução.
" É estritamente proibido fazer publicidade à língua gestual no interior deste estabelecimento.",
" Eu só queria mostrar-lhes como é a dactilologia." " Não há discussão. Proibido é proibido.,"
E " proibido " não admite discussão. Nenhum aluno daqui tem o direito de ser informado. É a lei.
E é efectivamente a lei. A interdição vai durar até 1991.
Mas na altura tenho onze anos, estamos em 1984, não possuo o dom da futurologia e entretanto estou condenada a sofrer aquela lei do silêncio. É o cúmulo! A língua que me franqueou o mundo e me permitiu compreender os outros, a língua dos meus sentimentos, das situações, é-lhes interdita?
Que pesadelo!
Alguns professores conhecem a LSF( Língua Gestual Francesa) e praticam-na às escondidas; alguns tentaram até tomar um pouco o