57
Que emprego conseguirei arranjar, como irei viver e com quem? Desde a ida a Washington que me ponho todas estas questões. Na minha cabeça evoluí tanto, apanhei no ar tanta coisa e ainda há tanto para atingir...
E lá fui eu para a Escola Morvan, para o sexto ano.
Chego atrasada no primeiro dia de aulas. A directora acompanha-me à sala e dá-me um lugar que estava vago. Há uma pequena interrupção, vários olhares que me fitam com insistência e em seguida a aula recomeça.
Sinto-me cercada, espiada por todos os lados. Estou numa aula de surdos e os surdos são curiosos por natureza.
A professora tem o cuidado de manter as mãos atrás das costas e fala, articulando as palavras exageradamente, arrastando os movimentos da boca de maneira muito " convincente ".
Os alunos lêem nos seus lábios.
Foi ali, naquele instante, que compreendi a extensão do desastre e me lembrei da advertência dos meus pais, feita com todas as precauções. Aquela mulher que não utiliza nem as mãos nem o corpo para ensinar, cuja atitude significa a proibição total do emprego de outra língua que não a palavra, considero-a uma autêntica provocação. Fico profundamente chocada, direi mesmo enojada. No ITV de Vincennes habituei-me ao à-vontade da minha língua, e aqui sou de novo uma estranha. A certa altura, pensei:
Isto é a brincar. Vai fazer isto durante uns momentos e em seguida descontrai-se."
Mas os outros olham e escutam atentamente e eu não ouso interferir. Esforço-me por compreender o que ela diz. Nada.
E ela percebe-o; nem sequer sei de que aula se trata.
No recreio confraternizo com os meus colegas. Confraternizo é força de expressão; não há um único que fale a língua gestual. Alguns falam com as mãos, uma espécie de código que pretendem expressivo, mas não conhecem nem as regras nem a gramática. Aventuro-me. Faço gestos.
" Como é que te chamas? Eu chamo-me Emmanuelle e falo a língua gestual. Entendes?"