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que fico extasiada. Fala o francês oralmente e de um momento para o outro passa para a língua gestual com uma espantosa facilidade. É para mim motivo de uma alegria louca e de um imenso orgulho.
Eu é que me transformei na " ciência ". Actualmente podemos conversar, ela compreende-me, quer ouvindo quer não, já não há diferenças entre nós visto eu ser capaz de lhe ensinar coisas e que ela as entende. Tornou-se bilingue.
Diferença... bom, sempre existe alguma. Vejo-a imitando a minha mãe a pronunciar " A, E, I, O, U ". Ela imita as vozes dos meus pais, coisa que eu nunca pude fazer. Quando experimento imitar a voz da minha mãe, sai completamente ao lado. As pessoas dizem-me: " Fala, fala, nós compreendemos ", mas de momento sei que não é assim, a não ser no seio da família. Na escola primária os miúdos faziam troça de mim riam dos meus esforços para falar: " Não percebemos nada! O que é que estás dizendo?"
Claro que eles não me entendiam. Mas era eu quem me esforçava por imitá-los, sem nunca ouvir o resultado desse esforço. Não conheço o som da minha voz. E eles? Que esforço faziam além de zombar?
Perguntam-me muitas vezes se tenho pena de não ouvir a voz da minha mãe. E eu respondo:
" Não se pode lamentar aquilo que se desconhece. Não conheço o canto dos pássaros ou o ruído das ondas. Ou, como tentavam fazer compreender em Vincennes aos pais das crianças surdas, o som de ovo a estrelar ".
Que ruído fará um ovo a estrelar? Posso imaginá-lo à minha maneira, algo que encarquilha, que ondula, que está quente.
Uma coisa quente, amarela e branca, que ondula. Isso não me faz falta. Os meus olhos resolvem o problema.
A minha imaginação, mesmo em criança, é certamente mais fértil do que a das outras pessoas. Está é um pouco desordenada.
E a ordem que se estabeleceu na minha cabeça quando entrei para o sexto ano leva-me a recusar veementemente a etiqueta de atrasada. Não sou atrasada, sou surda. Tenho uma língua com que comunicar, colegas que a falam também, assim como os meus pais.
Preocupo-me com aquilo que poderei vir a ser mais tarde.