O voo da Gaivota 1 | Page 55

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Os meus pais ficam furiosos com a administração da escola pública, e eu completamente desanimada. Como é que vou poder continuar a estudar?
Aquela recusa foi uma profunda injustiça. Considerei-a um acto de racismo. Recusar a educação a uma criança porque é demasiado negra ou amarela ou surda denuncia a pior segregação num país que se diz democrático.
Existe em Paris uma única escola de ensino privado especializada na educação de surdos que poderei frequentar. Faço o exame de admissão e sou aceite. Eu e a minha surdez profunda.
A minha mãe diz-me prudentemente:
" Emmanuelle, é preciso que saibas que esta escola ensina pelo processo oral. Não há apoio em língua gestual. Terás que seguir as aulas prestando atenção aos lábios, vais ser obrigada a falar. Não terás licença para utilizar as mãos, compreendes?"
Naquela altura, pensei ter compreendido a mensagem, mas na realidade não lhe prestei atenção. Se a palavra " proibido," foi pronunciada, não chegou a preocupar-me. Consegui passar no exame e, com onze anos, há outras coisas que me apaixonam e me preocupam.
Em primeiro lugar, o que me apaixona. Ando a ensinar à Maria a língua gestual. Tem pouco mais de três anos, ensino-a a escrever algumas palavras, coisas simples do quotidiano, e quais os gestos correspondentes.
Temos ambas, ela e eu, uma relação de amizade muito intensa. Acho-a um amor, gosto de brincar com ela, gosto de a ensinar e sinto-me muito orgulhosa. Digo à minha mãe.
" Repara, estás a ver? Posso ensinar-lhe alguma coisa!"
Dei o meu quarto à Maria e durmo na sala. Tenho uma antiga carteira de escola com um banco de madeira e um buraco para o tinteiro. É ali que eu " ensino ".
Maria senta-se a meu lado no banco rijo e desenhamos.
Como a minha mãe não conseguiu ensinar-lhe os dias da semana, resolvo eu fazê-lo. Recapitulamos os dias associados às cores: a segunda-feira é amarela, a quarta encarnada, etc. Primeiro ensino-a a escrever e em seguida ensino-lhe os gestos. As mãozinhas dela desenham coisas tão bonitas no ar, compreende tudo tão depressa