O voo da Gaivota 1 | Page 50

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Encaro os factos. Tenho uma reflexão que se constrói. Tenho necessidade de falar, de dizer tudo, de contar tudo, de compreender tudo.
É de loucura. Torno-me tagarela. Creio mesmo que aborreço toda a gente à força de fazer perguntas: " O que é que tu disseste?"
xámo-la falando todos oralmente com ela e dá connosco a falar a língua gestual! Foi depois daquela viagem que decidi firmemente e assim que possível ensinar-lhe a gestualizar. Fito as suas mãozinhas cheia de impaciência, devorada pela vontade de a ver falar comigo, de ser sua professora. Anseio que cresça para poder falar com ela.
Maria virá a ser mais do que minha irmã, minha confidente privilegiada, minha intérprete. A pouco e pouco aquela relação especial que eu tinha com a minha mãe vai passar para ela.
De momento tenho que me esforçar para falar com ela e aceitar já não ser filha única. Partilhar.
Tomamos banho juntas. Arrelio-a, roubo-lhe um brinquedo, ela bate na água, eu também, ela puxa-me os cabelos, eu faço o mesmo. Adoramos ambas arreliarmo-nos mutuamente. Adoro ver-lhe os dentinhos a brilhar quando ela chora para chamar a minha mãe. Diverte-me. A minha mãe chega zangada, ralha comigo, eu choro e é a vez de a Maria rir às gargalhadas.
O nome gestual de Maria " diz-se " juntando as mãos sobre o peito. Adoro a Maria.
10 Flor que chora
Não sei em que idade comecei a compreender a diferença entre ficção e realidade. Com as minhas referências essencialmente visuais, presumo que tenha sido através de filmes. Por exemplo, em pequena vi o Tarzan, um Tarzan a preto e branco com o Johnny Weissmuller. Aquilo parecia-me autêntico, verosímil. Tarzan não falava, o que o tornava real aos meus olhos.
Aquela imagem marcou-me, comparava-o ao surdo que não pode falar, imaginei-o igual a mim, incapaz de comunicar.
E tive pesadelos por causa desse filme. A cena em que a tribo de selvagens negros chega a gritar e a dançar em volta de Tarzan fez-me