O voo da Gaivota 1 | Page 49

49
ser humano dotado de linguagem. Os que ouvem utilizam a voz, como os meus pais; eu utilizo as mãos. Como a Clara, como tanta gente que usa a mesma língua.
Depois disso as perguntas atropelam-se. Primeiro, como agir para comunicar com quem ouve? Com os meus pais não há problema, visto eu ter a sorte de eles aceitarem a minha língua e eles próprios fazerem um esforço para a aprender. Mas com as outras pessoas?
A resposta é evidente: é preciso que eu continue a aprender a falar, que faça também eu um esforço para aceitar os que ouvem, tal como os meus pais me aceitam. Eles fazem gestos, eu vou falar em voz alta, como quem aprende uma língua estrangeira.
Bill Moody é formidável connosco; ajuda os meus pais a descobrirem o mundo dos surdos, cheio de paciência, sempre lúcido, sempre presente. Os seus expressivos olhos azuis, as mãos hábeis e precisas fazem dele um professor e um guia notável. Aprendo os gestos sem tréguas. Ensaio diante do espelho e vejo gestos por todo o lado. Tenho a cabeça recheada de língua gestual. Por vezes tenho que fechar os olhos para me lembrar, de ficar no escuro até que a imagem reapareça. Acontece que às vezes, ao olhar para mim, nem eu própria me compreendo. Quero dizer alguma coisa mas faço-o depressa de mais. Falo atabalhoadamente. Há gestos que invento porque ainda não os conheço todos e quero conseguir dizer uma determinada coisa.
Quando ninguém entende explico o gesto: " Para mim, quer dizer isto." " Não se diz assim, diz-se assim!", " Ah! Está bem."
Absorvo tudo com uma voracidade espantosa. Aos meus pais custa-lhes mais do que a mim. Eles precisaram de dois anos, eu de três meses.
Com a descoberta da minha língua encontrei a chave da porta maciça que me separava do mundo. Hoje entendo o mundo dos surdos e também o daqueles que ouvem. Compreendo que o mundo não pára nos meus pais, que há outras pessoas com interesse. Já não tenho aquela espécie de inocência de outrora.