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Aquela mulher, cujas mãos envolvem suavemente as minhasseguindo no espaço o desenho de cada gesto, impressiona-me profundamente. Tem ainda mais dificuldades do que eu, a sua situação é mais difícil do que a minha e no entanto consegue comunicar!
A esperança que me deram aquelas pessoas em Washington, este lado positivo, conduziu-me a uma descoberta muito importante, mais uma, acerca de mim mesma: compreendo que sou surda. Nunca ninguém mo tinha dito.
Uma noite, em Washington, entro como um pé-de-vento no quarto dos meus pais, excitadíssima, numa pilha de nervos. Começo a gestualizar, mas faço-o tão atabalhoadamente que eles não entendem; então recomeço mais devagar: " Sou surda!".
Sou surda não quer dizer: " Não ouço.", Quer dizer: " Compreendi que sou surda."
É uma frase positiva e determinante. Na minha mente, admito que sou surda, compreendo-o, analiso-o, porque me deram uma língua que me permite fazê-lo. Compreendo que os meus pais têm a sua própria língua, a sua maneira de comunicar e que eu tenho a minha. Pertenço a uma comunidade, tenho uma verdadeira identidade. Tenho compatriotas.
Em Washington os outros disseram-me: " Tu és como nós, és surda." E fizeram o gesto que indica surdo. Nunca mo tinham DITO.
E a revelação está ali, um conceito que eu nunca tinha construído na minha cabeça. Ainda estava numa definição a meu respeito, do género: " A Emmanuelle não ouve."
Depois de ter compreendido a palavra " eu ", Eu chamo-me Emmanuelle, naquela noite compreendi com a intensidade súbita de um relâmpago: " Sou surda."
Agora sei o que fazer. Faço como eles, uma vez que sou surda como eles. Vou estudar, trabalhar, viver, falar, pois eles fazem-no também! Vou ser feliz, pois eles também o são.
Porque só vejo pessoas felizes à minha volta, pessoas com futuro. São adultos, têm um emprego; também eu um dia hei-de trabalhar. Tenho pois dons subitamente revelados, capacidades, possibilidades, esperança.
Nesse dia cresci interiormente. Imensamente. Torno-me um