47
obviamente com a boca, não com os ouvidos, de forma que o gesto da boca aberta e os dedos a apontarem a abertura é já suficientemente claro. A casa é a mesma coisa.
A primeira vez que me disseram " Home " não compreendi, mas assim que fizeram o gesto de " casa ", em forma de telhado, entendi de imediato. Quanto ao resto- o abstracto, as particularidades- cada língua gestual exige uma certa adaptação, como aliás qualquer língua estrangeira.
Ficámos um mês em Washington, na residência perto da Universidade Gallaudet. No prédio todos os locatários falam por gestos. Tomamos as refeições no selfservice e temos que nos apresentar e dizer em língua gestual qual é o nosso número.
Sinto-me orgulhosa, orgulhosa como nunca me tinha sentido antes.
A universidade acolhe médicos surdos, advogados surdos, professores de psicologia surdos... Todas essas pessoas tiraram cursos superiores; aos meus olhos são génios, são deuses! Na França não há nada semelhante.
Tive um encontro emocionante e impressionante com uma mulher surda e cega. Como comunicar com ela?
Dizem-me para soletrar o meu nome em dactilologia na palma da sua mão. Ela sorri e repete o meu nome na minha mão.
Fico profundamente perturbada com aquela mulher. É simplesmente magnífica. Eu julgava que todos os cegos tinham os olhos fechados; no entanto o olhar dela parece " fitar-me " como se estivesse de facto a ver-me. Pergunto-lhe como é que faz para falar, visto não ser possível soletrar todas as palavras na mão de alguém. Explica-me através de língua gestual:
" Tu utilizas a língua dos gestos, eu ponho as minhas mãos à volta das tuas, para tocar cada gesto, e assim compreendo-te."
Aquilo é um mistério para mim; eu preciso dos meus olhos para entender um gesto, tenho que estar de frente para uma pessoa. Compreenderá ela de facto? Realmente? Volto a fazer a mesma pergunta.
" Não te aflijas, eu entendo-te, não há problema!," Interrogo-me como é que ela cresceu, como é que aprendeu.