O voo da Gaivota 1 | Seite 46

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surda. Fico como se tivesse aterrado noutro planeta onde todas as pessoas fossem como eu.
Há dois, três, quatro à conversa, e depois cinco, seis... mal posso crer nos meus olhos! Fito-os com a boca aberta de espanto, impressionada, com a cabeça à roda. Uma verdadeira conversa de surdos em grupo, em qualquer coisa que eu nunca tinha visto até então.
Tento perceber onde é que me encontro, o que é que se passa naquele local, mas não consigo. Não há nada para compreender, aterrei simplesmente aos sete anos num mundo de surdos, mais nada.
Primeira ida à Universidade. Alfredo Corrado explica-me que nem toda a gente é surda, o que dá essa impressão é o fato de haver muitos professores que ouvem mas que sabem a língua gestual. Como é que eu podia reconhecê-los, se ninguém tem um letreiro na testa? Mas não me parece que isso seja necessário, pois têm todos um ar tão feliz, tão à vontade. Não há a menor reticência, nem mesmo a que pressenti na escola de Vincennes. Inconscientemente, as pessoas em França têm um certo pudor em usar a língua gestual. E eu apercebi-me desse pudor. Preferem esconder-se como se tivessem algum defeito vergonhoso. Vi surdos sentirem essa humilhação durante toda a sua infância e ainda hoje não conseguirem ultrapassar completamente esse problema, falando a sua própria língua. Adivinha-se que o seu passado foi difícil. Talvez por a língua gestual ter sido proibida em França até 1976. Os gestos eram considerados indecentes, provocantes, sensuais, fazendo apelo ao corpo.
Mas em Washington não se passa nada disso. Não há o menor problema, toda a gente está perfeitamente à vontade. A língua é praticada normalmente, sem complexos. Ninguém se esconde, ninguém tem vergonha. Pelo contrário, os surdos têm até um certo orgulho, têm a sua cultura e a sua língua própria como qualquer pessoa.
O Bill leva-nos a passear na cidade e vai traduzindo ao mesmo tempo o francês e o inglês, a ASL( American Sign Language) e a LSF( Langue des Signes Française). Uma ginástica
fascinante; nunca percebi como é que ele conseguia. Cada país tem a sua língua gestual como tem a sua própria cultura, mas mesmo assim dois estrangeiros surdos conseguem facilmente entender-se. Temos um código básico internacional que nos permite compreender-nos com bastante facilidade. Por exemplo, comemos