O voo da Gaivota 1 | Page 45

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Aquela viagem foi organizada por Bill Moody, o intérprete de Alfredo Corrado, com o grupo do IVT. Vão também um sociólogo, Bernard Mottez, um ortofonista, Dominique Hof, e alguns adultos surdos que se ocupam de crianças surdas. O objectivo da viagem é descobrir como vivem os surdos americanos, conhecer a sua Universidade Gallaudet, saber como resolvem os seus problemas no quotidiano. Clara é a única criança da minha idade que faz parte do grupo. É loira, surda como eu e vai tornar-se minha amiga inseparável. Nunca esquecerei a primeira vez que a vi. É tão viva quanto eu sou tímida e reservada, mas os nossos olhares cruzaram-se intensamente e o contato foi imediato. É juntas que partimos para aquela aventura, a maravilhosa descoberta que ignoramos ainda, ela e eu.
A descolagem do avião assusta-me. O chão estremece, as rodas deslizam. Sinto o avião vibrar, seguindo-se uma espécie de poço de ar, como num elevador quando sobe muito depressa.
Sinto-me esmagada contra as costas da minha cadeira.
Uma vez no ar as coisas melhoram. Eu e a Clara lemos um Mickey, sentadas lado a lado, sossegadas, e em seguida adormecemos até à aterragem. Nessa altura sinto dores horríveis nos ouvidos, a ponto de morder a almofada. Foi um grande sofrimento que me surpreendeu em absoluto, dando-me a impressão de que vou explodir. Disseram-me para comer pastilha elástica, e mastigo, mastigo, mas aquilo não passa. Clara não sente nada, está louca de alegria.
Já no solo, recupero lentamente, as dores desaparecem.
Estamos em Nova Iorque; não me diz nada de concreto, Nova Iorque, a não ser os arranha-céus. Seguidamente partimos para Washington, desta vez em autocarro.
O sol brilha, está calor. Chegamos a uma espécie de prédio grande, onde os meus pais alugaram um apartamento e os pais da Clara outro.
Na rua o espectáculo dá-me um choque tremendo. Mais do que um choque, uma revolução! E compreendo: estamos na cidade dos surdos. Há pessoas a gesticular por todo o lado; nos passeios, nas lojas, em volta da Universidade Gallaudet. Há surdos por todo o lado. O vendedor numa loja faz gestos para a compradora, as pessoas cumprimentam-se, conversam por gestos. Estou realmente numa cidade de surdos. E imagino que em Washington toda a gente é