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Eu tenho um vestido lindo, está tudo em ordem. A minha mãe arranja o bebé. Enquanto junta as coisas dela põe-mo ao colo.
De repente o bebé faz um ar de espanto e apercebo-me de que fez as suas necessidades. Eu toda pronta, com o meu lindo vestido, e o bebé a fazer tudo em cima de mim! Fico enervadíssima. Tenho que mudar de roupa e a Maria de fralda! Não fiquei nada satisfeita.
Não sei porquê mas nunca esquecerei aquela imagem-recordação. Talvez tivesse sido a minha confrontação com a realidade da existência de um outro ser, o facto de ter que assumir a vida de alguém no bloco familiar, que até então reservava só para mim.
Eu dizia o bebé quando a Maria era pequenina porque me esquecia. Esquecia-me como se pronunciava o seu nome correctamente. Muitas vezes apetecia-me dizer-lhe: " Maria, olha para mim ", para conversar com ela por gestos, mas não consigo. Por ela ser muito pequena e eu própria não ser ainda muito hábil.
Tento pois comunicar com ela como fazem os meus pais, falando um pouco, com as minhas palavras pronunciadas de forma desajeitada:
" Ma-ri-a... Ma-ri-a... Ma-ri-a..."
9 A cidade dos surdos
Ainda há pouco dei início à aprendizagem da língua gestual e já vamos deixar a Maria em França para podermos ir a Washington, a espantosa " cidade dos surdos ".
Depois de todo o tempo que passou sinto-me um pouco envergonhada; eles deviam tê-la levado, privei-a dos nossos pais durante um mês. Foram eles que resolveram deixá-la entregue aos meus avós, eu não fui minimamente responsável, mas mesmo assim tenho uma certa sensação de desconforto. Os meus pais fazem aquele esforço por mim, para que eu possa ir aprender a língua gestual e deixam ficar o bebé.
Washington é antes de mais nada o avião. É a primeira vez que ando de avião e não sei para onde vou. Sei que vou para o estrangeiro, mas para onde? Quem é que pode explicar-me Washington? Na altura da partida, ninguém. Compreendi mais tarde, à chegada.