O voo da Gaivota 1 | Page 51

51
muito medo. Não consegui compreender o que se passava e tive pesadelos. Os meus pais tentavam explicar-me, mas não entendi a história. Mais tarde soube que aquele pobre Tarzan tinha perdido os pais, que a tribo dos negros " maus " estava furiosa. Mas era tarde de mais. Entretanto comecei a ter pesadelos. Talvez por me identificar com o Tarzan, que era mudo. Isto foi antes de aprender a língua gestual. A minha cabeça estava muito confusa.
Depois pus-me a descobrir o sentido das palavras. Já me esqueci de como é que isso aconteceu. Uma criança que ouve pode comparar a palavra escrita com o som que ouve e depois com o sentido.
Tive que escrever cem vezes a palavra mãe. Terei realmente compreendido naquela altura o que significava? A minha mãe, que eu via à minha frente? Ou seria outra coisa? Aquela palavra quereria dizer uma mesa? Como é que eu aprendi as frases, o sentido, a estrutura? Já me esqueci.
Adorava que me contassem histórias. Seguidamente aprendi a ler, e li. Estava sempre a remexer nos dicionários a pesquisar, a memorizar. De início, lia o Asterix e Obelix em banda desenhada, sem compreender o texto. Era mudo.
Na vida real sentia-me sempre deslocada relativamente às cenas que se desenrolavam diante dos meus olhos. Tinha a impressão de não fazer parte do mesmo filme. O que por vezes provocava em mim reacções inesperadas.
Recordo uma festa que houve em nossa casa; toda a gente a falar, só lá estão pessoas que ouvem, sinto-me isolada como sempre em idênticas situações. O mistério da comunicação possível entre aquela gente deixa-me perplexa. Como é que eles conseguem falar uns com os outros ao mesmo tempo, de costas voltadas, com os corpos virados para onde calha? Que som terão as vozes deles? Nunca ouvi a voz da minha mãe, do meu pai, dos nossos amigos. Os lábios mexem, as bocas sorriem, abrem-se e fecham-se numa rapidez alucinante. Primeiro observo com toda a atenção e depois farto-me. Sou mais uma vez invadida pelo aborrecimento, aquele deserto da exclusão. De repente, um cantor amigo que o meu tio convidou para o serão, Maurice Fanon, chega ao pé de mim e oferece-me uma flor. Pego na flor e desato a chorar. Toda a gente olha para mim. A minha mãe interroga-se sobre o que me terá acontecido.
No fundo, o que é que me aconteceu? Nem eu sei. Foi uma emoção muito violenta, demasiado forte para o meu isolamento? Terá sido a