O voo da Gaivota 1 | Page 146

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É verdade que só tenho vinte e dois anos. Só tenho tido estas conversas comigo, ou comigo e com a outra, e por questões próprias da minha idade.
Pára de fazer asneiras. Olha a vida de frente. Faz o liceu, vais conseguir. Não tenhas medo. Sobe ao palco, ensaia, vais transformar-te em Sara. Os pequenos e grandes combates da minha curta existência,
foi assim que os discuti. Houve altos e baixos. Houve momentos em que me senti mais isolada, mais só, e noutros muito menos.
Tenho ainda muito que aprender, ainda me interrogo muito. Aprender, aprende-se uma vida inteira. Se a pessoa deixa de aprender está tramada. A vida tem que continuar, dia após dia, com outras novidades, com aprendizagens diferentes. É assim que se goza realmente a vida. A minha filosofia é combater.
Lutar para viver. Não se render. Comprometer-se. Fazer tudo.
Os prazeres simples também. As alegrias diárias. Saber agarrá-las. E guardá-las.
Por vezes duvido. O balanço da minha vida será positivo ou negativo? Terei feito alguma coisa de importante?
Não sou velha, mas desde o meu nascimento aconteceram tantas coisas... " Envelheci ", em acelerado. Tive experiências muito cedo. Demasiado cedo. Tenho a sensação de ter avançado muito depressa. E de não ter ainda tempo para me voltar para trás e olhar o caminho percorrido. Um dia alguém me disse:
" O quê? Aos sete anos já fazias reflexões sobre ti mesma? Falavas da tua alma?"
Fui obrigada. Antes não havia rigorosamente nada. E derepente a comunicação ficou ao meu alcance. Forjei uma identidade, uma reflexão, a toda a pressa. Talvez para preencher o tempo perdido. Aos treze anos sentia-me uma adulta... Aos vinte e dois sei que terei ainda uma caminhada a percorrer para que isso aconteça.
Preciso dos outros, de intercâmbios. Preciso de uma comunidade. Não poderia viver sem os que ouvem, nem viver sem os surdos. Comunicar é uma paixão. às vezes preciso de respirar longe de um ou de outro mundo. Ficar à parte. Enrolar as asas. Mas não por muito tempo.