O voo da Gaivota 1 | Page 147

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Preciso de comunicar. Se não pudesse fazê-lo punha-me aos gritos, a bater, a alertar a terra inteira. Ficaria só no mundo.
A história da minha avó começa a tomar forma. Levo ao mundo dos surdos e dos que ouvem aquilo que sou. A minha palavra e o meu coração. A minha vontade de comunicar, de unir os dois mundos. Do fundo da minha alma.
Sou uma gaivota que ama o teatro, que ama a vida, que ama os dois mundos. O dos filhos do silêncio e o dos filhos do ruído. Que os sobrevoa e pousa em ambos com a mesma alegria.
Que pode falar àqueles que não têm essa sorte. Escutar os outros. Falar com os outros. E compreendê-los.
Há uns tempos, antes de dar início à difícil tarefa de escrever um livro, tremia de receio. Mas desejava-o. A escrita é muito importante para mim. É o meio de comunicação que eu não tinha ainda abordado seriamente até hoje.
Os que ouvem escrevem livros acerca dos surdos. Jean Grémion, professor de filosofia, homem de teatro e jornalista, estudou durante vários anos o mundo dos surdos para escrever uma obra notável, O Planeta dos Surdos, onde diz precisamente:
" Os que ouvem têm tudo a aprender com aqueles que falam com o corpo. A riqueza da sua língua gestual é um dos tesouros da humanidade.,"
Na França, ou mesmo na Europa, não tenho conhecimento de nenhum livro escrito por um surdo. Alguns me diziam: " Não vais conseguir..."
Mas eu queria fazê-lo. De todo o meu coração. Não só para falar comigo mesma, como para falar aos surdos e aos que ouvem. Para dar testemunho da minha breve vida, com a maior honestidade.
E, sobretudo fazê-lo na vossa língua materna. A língua dos meus pais. A minha língua de adoção.
A gaivota cresceu e voa com as próprias asas. Vejo como poderia ouvir. Os meus olhos são os meus ouvidos.