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gaivota. E serei mãe gaivota de um segundo. É importante que sejam dois. Quero que aprendam a brigar, a desenvencilhar-se, a partilhar e a amarem-se. Como minha irmã e eu. Mais tarde serei avó-gaivota.
Um dia, quando era pequena, a minha avó materna, que era muito religiosa, contou-me uma história. Adorava que ela me contasse histórias. Naquele dia foi " a minha " história... E nunca a esquecerei. Disse-me ela:
" Sabes, Deus escolheu-te. Quis que fosses surda. Isso quer dizer que espera que transmitas alguma coisa aos outros, às pessoas que ouvem. Se tu ouvisses, se calhar não eras nada. Serias uma menina banal, incapaz de levar alguma coisa aos outros. Mas ele quis que fosses surda, para dares alguma coisa ao mundo."
Deus, eu não sabia bem o que era. Não recebi educação religiosa, os meus pais não quiseram. A minha mãe tinha sido vítima da fé da minha avó, que falava de Deus como se O conhecesse pessoalmente. Cheia de certezas. Ele tinha querido que eu fosse surda. E eu ia dar alguma coisa ao mundo.
A minha avó transmitiu-me uma espécie de filosofia da existência. Uma solidez. Uma vontade.
Mas sou eu que me ultrapasso, avó; não é de Deus que eu tiro a minha força, é de mim mesma.
Sinto que há algures um espírito, qualquer coisa acima de nós. Ignoro se é Deus. Para mim, não tem nome. É uma força superior. Por vezes falo-LHE. Quando desejo intensamente uma coisa, como não ter medo, ser bem-sucedida, atingir um alvo, ultrapassar-me, falo-LHE como se estivesse a dirigir-me a uma pessoa qualquer. Talvez a mim mesma. Ou a alguém que toma conta de mim. Na realidade, é um diálogo interior.
Como gaivota voluntariosa, digo: " Deixa de ter medo, deixa de te apavorares, vais conseguir. Segue em frente! Atira-te de cabeça!" E uma outra voz responde-me, a da gaivota filósofa: " Vês, está tudo bem, não tens medo, não estás apavorada. Vais conseguir, está tudo bem, já conseguiste!"