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adoráveis, apaixonados, atentos, chegam a demonstrar admiração. É muito positivo.
No entanto, algumas perguntas fazem-me ir aos arames.
Sobretudo uma. Sempre a mesma. A eterna pergunta: " O seu silêncio, como é? É mais silencioso do que o silêncio duma cave, ou que o silêncio subaquático?"
Uma cave? Para mim uma cave não é silenciosa! Está cheia de odores, de humidade, tem o ruído próprio das sensações.
Debaixo de água? Debaixo de água estou em casa. Sou uma gaivota submarina, que adora mergulhar. Sou uma gaivota de superfície, que adora o sol e o mar. Debaixo de água sou igual a vocês.
O meu silêncio não é igual ao vosso. O meu silêncio seria ter os olhos fechados, as mãos paralisadas, o corpo insensível, a pele inerte. Um silêncio do corpo.
Por vezes apetece-me também responder que não aprecio todos aqueles termos de " que ouvem mal " ou " deficientes auditivos ". Os surdos apelidam-se a si próprios de " surdos ".
É francês, é claro. Que ouve mal? O que é que tem? Será necessário dizer " que ouve bem " quando nos referimos aos outros?
Última pergunta: " Gostaria de ter um filho?" Resposta: " Sim." Pergunta subsidiária: " Teria receio que fosse surdo ou que ouvisse?" Resposta: " Será como calhar. Será sempre meu filho. E ponto final." De momento isso faz parte de um projecto para o futuro.
Quer seja surdo ou que oiça, será sempre bilingue. Vai conhecer os dois mundos. Como eu. Se for surdo, aprenderá muito cedo a língua gestual, e irá ter contacto, também muito cedo, com a língua francesa. Se ouvir respeitarei a sua língua natural e ensinar-lhe-ei a minha. Ouvirá a minha voz. Há-de habituar-se à minha voz. Como a minha mãe, a minha irmã, o meu pai. Há-de ouvir-me. Serei a sua mãe