O voo da Gaivota 1 | Page 143

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As funções dessa professora são " desmudizar " os surdos, fazê-los falar, considerando, bem entendido, a língua gestual como uma sublíngua, uma tristeza, um código sem abstracção!
Só com imagens!
Não entendeu nada acerca de surdos, esta " especialista " de surdos. Tanto pior para ela, mas sobretudo tanto pior para eles.
" Não há nada mais assustador do que a ignorância em acção,", disse Goethe. E já que estamos a falar de teatro, gostaria de me transformar em Dorante para vos dizer:
" Gostaria de saber se a maior regra de todas as regras não é agradar, e se uma peça de teatro que alcançou o seu alvo não terá seguido pelo bom caminho.",
Eu posso também dizê-lo em língua gestual. Obrigada, senhor Molière.
Foi uma autêntica loucura. Os jornalistas, as entrevistas, as fotografias, Cannes, com um lindo vestido branco, o subir daquelas escadarias, toda a gente a chamar-me, esquecida de que não oiço... É lindo, é uma alegria. Mas fica-se exausto.
Pediram-me para participar em programas de televisão, e fui a todos os canais. Propõem-me papéis para o cinema. É tudo tão rápido, estou a viver num autêntico turbilhão. E durante um tempo atravessámos a França com Os Filhos do Silêncio. E todas as noites estremeço ao agradecer ao público, vendo todas aquelas mãos erguidas a aplaudir. " ouço " o sucesso. Vibra através de todo o meu corpo.
Jean obriga-me a trabalhar. Ama-me. Avançamos de mãos dadas. Ele é a minha referência que ouve. O meu companheiro de gestos e de caminho.
A luzinha encarnada do telefone não para de piscar. Há tantos projectos na vida da gaivota. Tantas coisas para fazer, para dizer, para representar. Tantas para amar.
Estou orgulhosa. E feliz. Que todo esse mundo dos media se
interesse, por meu intermédio, pelo mundo do silêncio. Não sabem nada acerca dos surdos. Cada jornalista me dá a impressão de que está finalmente a descobrir que nós existimos. São amáveis,