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Ganha o Molière pela melhor adaptação. Ganhámos ambos. Aqui vamos nós, Felicidade!
27 Adeus
Descobri recentemente o célebre questionário de Proustàs duas últimas perguntas: Qual é a sua divisa preferida? Qual o dom da natureza que gostaria de ter?, respondi: Aproveitar a vida; quanto ao dom, já o tenho, sou surda.
No dia seguinte à cerimónia dos Molière, todos os jornais trazem em grandes títulos mais ou menos a mesma notícia:
Surda-muda ganha o Molière."
Não é a Emmanuelle Laborit. É uma " surda-muda ". Emmanuelle Laborit está escrito em corpo pequeno, sob a fotografia.
O termo " surda-muda " continua a espantar-me.
Mudo significa que não se tem o dom da palavra. As pessoas vêem-me como alguém que não utiliza a palavra. É absurdo! Eu uso. Tanto com as mãos como com a boca. Faço gestose falo francês. Utilizar a língua gestual não significa que se seja mudo. Posso falar, gritar, rir, chorar, são sons que me saem da garganta. Não me cortaram a língua! Tenho uma voz esquisita mais nada.
Nunca disse aos jornalistas que não podia falar; só que tenho um vocabulário mais rico em língua gestual, o que me torna efectivamente mais fácil responder às suas perguntas por esse meio, com um intérprete.
Anedota: uma professora ortofonista, após todos estes artigos que surgiram a meu respeito, agrediu-me dizendo que eu deveria ter falado em vez de fazer gestos. Responsabilizou-me dizendo que a culpa é minha se as pessoas pensam que os surdos são mudos! Acusou-me de mentir. Segundo ela, tornei-me na representante dos surdos e deveria assumir essa responsabilidade intentando uma acção contra os jornalistas que afirmaram que eu era " muda ".
Um processo por causa de uma palavra! Que ridículo!