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Dizer o que tenho a dizer, prometi-o a mim mesma. Sem vacilar.
" É difícil para mim dizê-lo por gestos. Pela primeira vez um surdo é reconhecido como actor profissional e recebe o Prémio Molière. Estou felicíssima por todos os outros surdos.
Desculpem, estou muito emocionada. Tenho de fato lágrimas nos olhos. Gostaria de vos mostrar um gesto muito simples e de grande beleza... Gostaria que o fizessem comigo..."
Faço o símbolo da união. O lindo gesto que eu amo e que está nos cartazes dos Filhos do Silêncio.
Fico à espera que toda a gente me imite, mas ninguém o
faz. Sou tomada de pânico. E penso: " De que serve eu expressar-me? Será que ninguém sente a mesma emoção que eu?"
Sinto-me ridícula. É horrível. Volto-me para a intérprete, que me explica rapidamente que é preciso contar com o tempo que leva a fazer a tradução. Um tempo morto, terrível, em que
não se passa nada, afinal era só isso! A tradução de um pequeno " discurso ". Estava tão perturbada que nem pensei nisso. Recomeço a fazer o gesto e de repente vejo uma pessoa, e depois outras, e por fim todo o público! De braços no ar, as mãos como borboletas, e os dedos polegares entrelaçados.
Foi o melhor presente do mundo, toda aquela gente à minha
frente fazendo o mesmo gesto. Para lhes agradecer, disse oralmente:
" Adoro-vos!" Com a voz embargada pela emoção, sei que poucas terão ouvido aquele murmúrio da gaivota afónica. Beijo a Edwige Feuillère e fujo para os bastidores. A minha irmã corre pelo corredor e vem lançar-se nos meus braços.
Ainda não me conciencializei de que ganhei de fato o Prémio Molière de revelação do ano de 1993. Os flashes cegam-me, é horrível, dez minutos metralhada pelos fotógrafos.
E é a vez de Jean subir ao palco.