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A intérprete nem teve tempo de acabar o gesto, já ele está de pé, já sabe. Emm... tenho que ser eu.
Não sei para quem olhar. Para ele? Para a intérprete? Para o palco?
Levanto-me nas nuvens, os nossos olhos encontram-se, nem é preciso falar. Caminho em frente, ando, vacilo, mil coisas me atravessam a mente, sem a menor lógica, numa rápida sucessão de ideias. Começo a fazer gestos, sem dar por isso. Avanço, pensando no que devo dizer. O percurso até ao palco parece-me longo, interminável. As minhas pernas tremem, tenho medo de cair. É o vestido, os saltos altíssimos, não estou habituada a andar com sapatos assim. Vou cair, estatelar-me; é melhor prestar atenção para me equilibrar naquelas andas. Vejo a minha mãe, faço um sinal ao meu pai, olho para os pés, recapitulo o que vou dizer. Olho novamente para os pés. Não consigo tirar os olhos dos meus pés. Vigio atentamente o caminho que eles percorrem. Subo as escadas e fina
lmente consigo erguer os olhos um pouco mais acima. Cheguei.
Edwige Feuillère está longe, lá ao fundo, no palco, à espera, sorridente. E é de mim que está à espera!
E de súbito vejo o público à minha frente. O enorme público.
Engasgo-me. A emoção sobe-me à garganta, numa bola, prestes a explodir. Não quero chorar, não quero, mas aquilo sobe, invade-me, transborda.
Choro ao chegar diante daquela grande senhora que me estende os braços. Fico bloqueada. Não vou conseguir dizer nada em língua gestual. Não me ocorre nada.
Desajeitadamente, digo " obrigada " por gestos. As rodas emperraram. Os meus olhos não vêem nada.
Mas dentro da minha cabeça uma vozinha diz-me:
" Vá lá, Emmanuelle, o público está à espera. O público dos Molière. Atira-te de cabeça! Diz alguma coisa."
Ponho a emoção de lado. E o medo. E vou em frente. " Obrigada. Obrigada. Obrigada."
Bom, já estou um pouco melhor. Continuo, aprisionando a emoção no fundo da garganta, bloqueando-a desesperadamente.