O voo da Gaivota 1 | Page 139

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bocas que falam à minha volta sabem coisas que eu ignoro ainda. Sabem a segurança da aparência, a segurança do dizer e do julgar.
Trouxe a minha intérprete Dominique Hoff, a de sempre, a que me conhece de cor, que adivinha ao primeiro gesto o que quero dizer. E tenho Jean, cujo amor em cena, e na vida real é uma referência essencial. Faz-me um gesto:
" Que tal? Estás bem?" Não! Mas digo que sim.
Não gostaria nada de subir ao palco como um autómato, diante daquele público prestigiado, dizer obrigada e sair. Gostaria de LHES dizer alguma coisa. Disso tenho eu a certeza. Mas também quero ser capaz de ficar sentada no meio deles e de me controlar. De aceitar a derrota. O mundo do teatro, um terceiro mundo para mim, acolheu-me; quero mostrar-me digna dele.
Quando era ainda adolescente sonhava com a Marilyn Monroe, tão frágil, sabendo aguentar todas aquelas emoções da sua profissão. Tinha retratos dela por toda a parte. Eu não sou a Marilyn nem isto aqui é Hollywood, mas para mim é a mesma coisa. É a primeira vez que uma actriz surda é nomeada para um Prémio Molière. E fui eu a contemplada. Mesmo que não ganhe, já terei ultrapassado um obstáculo imenso.
E tenho em perspectiva duas emoções possíveis dentro de alguns minutos: uma para me elevar nos ares; a outra para permanecer sentada.
No palco, está Edwige Feuillère, soberba, acompanhada de Stephane Freiss, que ganhou o Prémio Molière no ano passado.
Jean diz-me por sinais que começaram a citar os cinco nomes.
Não aguento. Gostaria de poder saber o resultado num milésimo de segundo, depressa, depressa, para que as minhas mãos deixem de tremer... para que isto acabe.
Rasgam o envelope. Se for eu, a minha intérprete avisa-me, Vieram buscá-la antes da leitura da lista dos nomeados para lhe dizer que esteja pronta para subir ao palco. No caso de. Se a preveniram é porque talvez...
Mas Jean ouviu primeiro. Ouviu Emm... de Emmanuelle.