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Sara não quer demonstrar essa emoção. Sobretudo não quer chorar. Não pode. Mas tudo aquilo que esconde, que retém desesperadamente no mais íntimo do seu ser, tem que transparecer no seu rosto.
Ensaiei esta cena durante muito tempo com Jean. E pouco faltou para que desistisse. Mas por fim lá veio. Como uma luz.
Após um mês e meio de ensaios, chegou o dia da estreia.
Veio toda a família. Chantal Liennel, que representou aquele papel em França há dez anos, também fez questão de estar presente.
Estou apavorada. Um pavor que nem consigo descrever.
Que não me larga do princípio ao fim. O coração a bater desordenadamente. Com força. A sensação de que já não tenho nem fôlego nem pernas. Esta descrição é um resumo. Na realidade, é muito pior. Não há palavras que o descrevam.
Represento numa névoa. Estou noutro local, não vejo nada, não sinto a sala. Desorientada em cena. Com toda a minha vontade na maior tensão.
Quando cai o pano, quando enfim consigo respirar, sinto uma vontade incrível de chorar. Chorar de alegria. Mas retenho-me para agradecer ao público.
Consegui! Eu, sozinha, consegui! Representei a peça do princípio ao fim! Não troquei nenhuma deixa, não me esqueci de nenhuma cena, não tropecei nos reposteiros... E o meu coração não rebentou de medo.
Nem consigo ver qual a reacção das pessoas, o meu cérebro continua enredado. Só tenho uma ideia: consegui.
Maria precipita-se lavada em lágrimas, com flores para mim. Nessa altura, estoiro. E choro com ela, choramos ambas, abraçadas.
É uma emoção tremenda. Uma alegria infinita.
Nos dias seguintes a minha cabeça já foi ao lugar. Apercebo-me que não posso dirigir a minha actuação ao sabor das reacções do público. Jean ouve-os. Eu não. Ele adapta-se aos murmúrios de emoção, aos risos. Aguenta os tempos. " Ouve, tudo fingindo ter necessidade de os aguentar. Eu tenho que encontrar outro meio, outra forma de o seguir. Não posso fixar-me só nas reacções dele, no