O voo da Gaivota 1 | Page 135

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Não paro de fazer perguntas. Por que é que a Sara é tão violenta, tão oprimida? Por que é que ela quer permanecer encerrada no seu silêncio?
Esforço-me muito. Recomeço, não está bem. E enervo-me. Por vezes digo: " Nunca conseguirei! É impossível!"
Mas vou fazendo progressos. Tendo de vez em quando na cabeça a imagem daquelas outras duas atrizes que tão bem representaram o papel de Sara antes de mim. Mas são imagens que apago. Não posso deixar-me perturbar por ondas diferentes.
Sou eu que tenho que sentir e interpretar Sara, aqui e agora. Uma oportunidade espantosa, que não posso deixar escapar. Conseguir. Conseguir.
Sara não é bem como eu, representa sim o meu trabalho como atriz. Não é como eu porque recusa o outro mundo. Não é como eu porque é infeliz. E porque se recusa a falar. E porque transporta em si o sofrimento da exclusão, da humilhação e do abandono.
A cena em que Sara diz que o pai a abandonou com cinco anos é a que me dá mais trabalho. A mim, o meu pai não me abandonou. Tenho que me concentrar.
SARA: " Na última noite o meu pai estava sentado na cama a chorar. No dia seguinte, tinha-se ido embora e a minha mãe pendurou um cartaz na parede!"
Não consigo. Não compreendo bem o papel, como integrar-me naquela personagem que exprime tanta dor naquela recordação e que recusa manifestá-la. Que se expõe em dolorosa ironia. Não queria falar sobre o assunto, mas de repente ele explode!
Como é possível pôr subtileza naquele sofrimento? Tento pensar em recordações pessoais que se aproximem o mais possível da sua dor, mas não há nada parecido na minha vida.
Não posso dizer por gestos, estupidamente: " O meu pai abandonou-me ", largar a chorar e pronto! Preciso sentir uma emoção sincera, subtil. Sofrer ao gestualizar esse sofrimento.
E contê-lo na última frase: A minha mãe pendurou um cartaz na parede! "